Em painel na Rio Nature and Climate Week, especialistas defendem modelo coordenado para punir agressores, de forma também a prestar contas à sociedade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Painel da Rio Nature and Climate Week sobre o combate ao crime ambiental — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 10:50 Combate a crimes ambientais é chave para sucesso climático, dizem especialistas na Rio Nature and Climate Week Especialistas na Rio Nature and Climate Week destacam que combater crimes ambientais é crucial para o sucesso das ações climáticas. A aplicação rigorosa das leis e a coordenação internacional são essenciais para enfrentar as ameaças que afetam ecossistemas e a confiança pública. Com o avanço de organizações criminosas no Brasil e além, a cooperação global e a transparência são vitais para punir violadores e garantir a eficácia dos compromissos ambientais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No momento em que acordos e mecanismos de proteção de ecossistemas e de prevenção de emissões de gases estufa se veem ameaçados por mudanças políticas e econômicas, uma das principais tarefas globais hoje é garantir que as regras (ainda) em vigor sejam cumpridas à risca. Não apenas para cumprir um conjunto de metas, mas também para demonstrar ao público que elas funcionam, e que violações não serão permitidas. — O combate a crimes ambientais é mais do que compromissos, é a aplicação desses compromissos, e a credibilidade depende de dados integrados, instituições transparentes e algum grau de confiança pública — afirmou Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé e do SecDev Group, e que mediou o painel sobre Estado de Direito e crime ambiental na Rio Nature and Climate Week. O cenário do Brasil é um dos mais desafiadores. Além de quadrilhas locais especializadas em atividades ambientais ilícitas, como a extração de madeira de áreas protegidas ou a exploração de ouro em terras indígenas, organizações criminosas com atuação internacional passaram a enxergar na exploração ilegal uma fonte de renda. Pesquisadores apontam para uma conexão cada vez maior de grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) com garimpeiros e madeireiros que atuam à margem da lei, em paralelo ao estabelecimento da Amazônia como uma rota de transporte de drogas, especialmente para a Europa. — A ameaça é mais do que ecológica. Ela instiga a instabilidade social, os crimes alimentam a corrupção e os conflitos, e a extração ilegal de recursos afeta comunidades e a confiança no sistema — disse Thomas Ungerbuehler, diretor assistente de Segurança Ambiental da Interpol. Renato Agostinho (D), ex-diretor do Ibama, fala durante painel na Rio Nature and Climate Week, ao lado de Thomas Ungerbuehler, diretor assistente de Segurança Ambiental da Interpol (C) — Foto: Divulgação Para Ungerbuehler, o fato das organizações criminosas terem uma pegada transnacional — um relatório recente do Ministério Público de São Paulo mostrou que o PCC se expandiu para 28 países — torna o monitoramento de suas atividades mais desafiador. — Os criminosos agem através das fronteiras. Um crime pode começar em um país e terminar em outro. Essa dimensão global permite que atuem à margem da lei — afirmou. — E como essas redes são adaptáveis, precisamos de uma abordagem holística, apontando que os compromissos ambientais são mais do que simples compromissos. Em sua intervenção, Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama entre 2023 e 2026, mencionou a importância do trabalho coordenado no enfrentamento a crimes ambientais. O compartilhamento de dados entre países da Amazônia, por exemplo, ajuda a desbaratar rotas usadas pelas organizações criminosas para transportar substâncias ilícitas ou para escoar produtos extraídos ilegalmente — houve casos recentes de apreensões de drogas e de madeira sem certificação de origem no mesmo carregamento. — A cooperação nos níveis horizontal e vertical precisa acontecer, e não apenas no topo da cadeia de comando e controle. No caso de incêndios florestais, por exemplo, se tivermos as informações de onde estão ocorrendo, podemos informar aos estados e municípios para o controle inicial — explicou. — Precisamos que todos trabalhem de maneira adequada, e a cooperação pode ajudar, e muito. O Ibama, por exemplo, não investiga, quem faz isso é a Polícia Federal. A solução passa por aí. No ano passado, foi inaugurado em Manaus o Centro de Cooperação Policial Internacional, um esforço transnacional, coordenado pela Polícia Federal, reunindo nove países e que funciona em parceria com redes de cooperação como a Interpol e a Europol. — Precisamos ir em direção a um compartilhamento mais global de informações. Os criminosos não respeitam fronteiras, e a solução recai sobre equipes interligadas e unidades de inteligência. É a única forma de fechar brechas institucionais exploradas por esses indivíduos — apontou Ungerbuehler. A sociedade civil, apontou Agostinho, tem um papel importante na cobrança às autoridades e, como o faz o Instituto Igarapé, revelar o caminho percorrido pelo dinheiro, desde a extração de ouro de um garimpo ilegal até as contas bancárias de organizações criminosas. O setor privado, explicou, é crucial no financiamento de iniciativas e também precisa cobrar seus fornecedores para que não ofereçam produtos ligados a atividades ilícitas. — No Brasil, as pessoas não entendem que crimes ambientais são crimes. As pessoas normalizam o desmatamento, a manutenção de animais vítimas de tráfico — destaca. — A sociedade não enxerga dessa maneira, e precisamos fazer o enfrentamento. Aos Estados, as obrigações vão além de vigiar e assinar acordos internacionais. — A aplicação da lei é o mais importante para garantir que o público não perca a fé. As penas para crimes ambientais são, por vezes, insuficientes, e é importante que eles sejam punidos como outros crimes — opinou Ungerbuehler. — É importante mostrar ao público que as prisões e processos estão acontecendo. Quando garantimos que traficantes de madeira serão punidos, estamos mostrando que a lei está sendo cumprida. Muggah concordou. — Essa é uma questão fundamental. A confiança só será construída quando levar a resultados.