Ao GLOBO, Rodrigo Medeiros defendeu a Rio Nature & Climate Week como uma plataforma permanente, fez um balanço geral sobre a primeira edição do evento e discutiu oportunidades para o Brasil na agenda global 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rodrigo Medeiros, diretor-geral do Instituto Natureza e Clima Brasil e idealizador da Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 11:17 Rio Nature & Climate Week: Rio se Consolida como Palco Global para Debates Climáticos A primeira edição da Rio Nature & Climate Week reuniu mais de seis mil participantes em seis dias de debates e atividades culturais, consolidando o Rio de Janeiro como plataforma global para discussões sobre clima e natureza. Rodrigo Medeiros destacou a importância de integrar as agendas de clima e biodiversidade e de amplificar vozes do Sul Global. O evento, pioneiro em unir essas temáticas, busca transformar o Rio em palco permanente para tais debates. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Após reunir mais de seis mil participantes ao longo de seis dias de debates, encontros e atividades culturais, a primeira edição da Rio Nature & Climate Week (RNCW) encerrou sua programação com a proposta de transformar o Rio de Janeiro em uma plataforma permanente para discussões sobre clima, natureza e desenvolvimento. Em entrevista ao GLOBO, Rodrigo Medeiros, diretor-geral do Instituto Natureza e Clima Brasil e idealizador do evento, explicou como a conferência buscou integrar as agendas de clima e biodiversidade de maneira inédita e, ao mesmo tempo, a importância de trazer as vozes do Sul Global para o centro do diálogo. Qual o principal balanço que o senhor faz desta primeira edição da Rio Nature & Climate Week? O que ela revelou sobre o momento atual da agenda global de clima e natureza? O sentimento geral é que precisávamos trazer essa discussão sobre os desafios da natureza e do clima para um território do Sul Global, e o Rio de Janeiro representa esse lugar. Primeiro porque a maioria desses encontros acontece no Hemisfério Norte, e as oportunidades para pessoas dos países mais periféricos chegarem até lá são sempre mais limitadas. A segunda questão foi a novidade de trazer para a mesma mesa os debates sobre natureza e clima. Nas últimas duas décadas, boa parte da discussão ficou centrada na temática climática, como se o papel da natureza e da biodiversidade fosse secundário. Mas, na verdade, ele é essencial. Então, tivemos a oportunidade de reunir negociadores e representantes das convenções internacionais, que normalmente trabalham de forma separada, para discutir os desafios da integração. Também foi muito positivo reunir setor privado e sociedade civil. O que torna este momento particularmente relevante para reunir diferentes atores em torno desses temas? O Brasil sempre exerceu essa liderança, e retomamos esse protagonismo ao sediar eventos como a presidência do G20, dos BRICS e a COP30. Era natural que, ao observar essa retomada, não ficássemos dependentes apenas de eventos pontuais. Entendemos que o Brasil, pela sua força e potência internacional, precisava de um espaço que permitisse ao país continuar exercendo sua influência e, ao mesmo tempo, amplificar as vozes de outros países do Sul Global. A RNCW nasceu com essa proposta. Este foi o primeiro ano, mas ela veio para ficar. Será uma plataforma permanente, realizada anualmente, sempre na primeira semana de junho. O Rio será o palco global dessas discussões. O que diferencia uma iniciativa como esta de outros espaços de debate sobre sustentabilidade? Existem várias ‘Climate Weeks’ pelo mundo, mas não existe nenhuma Nature & Climate Week. Essa integração é inédita. A maioria dos outros eventos ainda está muito focada na questão climática e, de alguma forma, negligencia o papel da natureza, das florestas tropicais e dos oceanos, que são fundamentais para a solução da crise climática. Ao propor a RNCW, queremos trazer a natureza de volta ao centro desse debate. A segunda diferença é justamente a perspectiva do Sul Global. A conferência foi concebida com a vocação de trazer lideranças de países que ainda concentram as maiores áreas de florestas tropicais, que serão os mais afetados pela perda da biodiversidade e pelo aquecimento global, mas que detêm uma parte fundamental das soluções. Esses países costumam ter baixa representatividade nos fóruns internacionais, principalmente por barreiras financeiras. A ideia é garantir que as demandas desses países sejam ouvidas. Como explicar esses temas e aproximar a população dessa discussão? As pessoas precisam compreender que esses grandes processos têm efeitos diretos sobre suas vidas. Na nossa conferência, incorporamos a cultura como elemento central de diálogo. Um exemplo foi a primeira Mostra Internacional de Cinema da RNCW, além do Global Citizen Live. Um show gratuito, aberto ao público, com apresentações de artistas como Ludmilla e Lauryn Hill. Durante todo o evento, promovemos uma jornada de conscientização e disseminação de informação com linguagem acessível. Acreditamos que essa jornada simplificada funciona como uma porta de entrada para que mais pessoas participem dessa conversa. O Rio de Janeiro já recebeu grandes eventos internacionais sobre clima e meio ambiente. O que faz da cidade um local adequado para sediar uma iniciativa como essa? O Rio reúne todas as condições para ser uma capital global dos grandes eventos, especialmente nessa temática. Aqui há um encontro entre urbanidade e natureza. E, justamente por isso, é uma cidade que reúne tanto os desafios quanto as soluções. É uma cidade global, de fácil acesso e reconhecida internacionalmente. Mas há também uma razão histórica. O Rio de Janeiro é a cidade-mãe das Convenções do Rio — as convenções do clima, da biodiversidade e da desertificação. Foi aqui que essa agenda ganhou projeção global. Foi aqui que termos como desenvolvimento sustentável, mudança do clima e biodiversidade passaram a fazer parte do vocabulário político internacional e do debate público. Antes da Rio-92, esses temas existiam na academia e na ciência, mas não faziam parte do cotidiano das pessoas. O Rio ajudou a moldar a percepção de que vivemos em um planeta interconectado e de que os modelos de desenvolvimento adotados ao longo do último século e meio geraram impactos que agora exigem respostas urgentes. O senhor espera que os participantes levem consigo depois dos encontros e debates desta semana? Espero que levem consigo as mensagens compartilhadas ao longo da semana. Tivemos representantes e painelistas da América Latina, da África e da Ásia, cada um trazendo as perspectivas, os desafios e as oportunidades de seus territórios. Esse intercâmbio permite que as pessoas se conectem com realidades diferentes e ampliem sua compreensão sobre a dimensão global dessas questões. Também levam a certeza de que o Rio de Janeiro se tornou um grande megafone internacional para essas comunidades e demandas. Um espaço capaz de amplificar vozes que muitas vezes têm pouca presença nos grandes fóruns globais. E acredito que todos levem também uma imagem muito marcante na memória: a do concerto realizado na Enseada de Botafogo. Ver tantas pessoas reunidas no Rio de Janeiro para defender que o Sul Global não seja esquecido é uma mensagem poderosa.