Ações como redução de resíduos, reaproveitamento de materiais e eficiência energética ajudaram empresas a cortar custos e reforçam que enfrentar a crise climática também pode trazer ganhos financeiros Investimento Sustentável — Foto: Pixabay Empresas de médio e grande porte economizaram entre US$ 80 bilhões e US$ 94 bilhões com iniciativas de redução de emissões desde 2024, segundo o relatório Disclosure Dividend 2026, divulgado pelo CDP, organização internacional responsável por uma das principais plataformas globais de reporte ambiental corporativo. O levantamento reforça um argumento cada vez mais utilizado por investidores e instituições financeiras, de que a agenda climática deixou de ser tratada apenas como uma obrigação regulatória ou reputacional e passou a ser vista como uma estratégia de geração de valor e de proteção financeira. A análise reúne informações reportadas em 2025 por mais de 11,2 mil empresas de médio e grande porte, responsáveis por cerca de dois terços da capitalização de mercado global. Segundo o CDP, os resultados indicam que companhias que investem para reduzir sua exposição aos riscos ambientais conseguem diminuir custos operacionais, aumentar a eficiência e evitar perdas financeiras associadas às mudanças climáticas. De acordo com o relatório, cada US$ 1 destinado a medidas para enfrentar riscos climáticos físicos — como eventos extremos, secas, enchentes ou ondas de calor que afetam operações e cadeias de suprimento — gera, em média, um retorno de até US$ 10. O indicador representa um aumento de 25% em relação ao estudo anterior, divulgado em 2025. No setor financeiro, o retorno potencial é ainda maior e pode chegar a US$ 64 para cada dólar investido. Segundo o CDP, os ganhos financeiros observados não decorrem apenas da redução das emissões de gases de efeito estufa, mas principalmente dos ganhos de eficiência associados às medidas adotadas pelas empresas. As economias entre US$ 80 bilhões e US$ 94 bilhões vieram, sobretudo, de iniciativas para reduzir desperdícios, reaproveitar materiais e melhorar a eficiência energética dos processos produtivos. Na prática, essas ações diminuem despesas com aquisição de matérias-primas, consumo de energia, combustíveis e custos relacionados ao descarte de resíduos. Além da redução de custos operacionais, o CDP afirma que as empresas também evitaram gastos futuros ligados à transição para uma economia de baixo carbono. Entre eles estão possíveis tributações sobre emissões de carbono, penalidades regulatórias, necessidade de adaptação a novas exigências ambientais e perdas de valor de ativos expostos aos efeitos das mudanças climáticas. "O mercado já está precificando o custo da inação", afirmou a organização em resposta ao Valor. Segundo o CDP, investir em medidas de adaptação e descarbonização representa não apenas uma estratégia ambiental, mas também uma forma de proteger o valor das empresas diante da crescente materialização dos riscos climáticos. O estudo mostra que a percepção das companhias sobre esses riscos mudou significativamente nos últimos anos. Em 2018, apenas 46% das empresas identificavam riscos ambientais relevantes para seus negócios. Em 2025, esse percentual chegou a 80%. Também cresceu o número de empresas que conseguem traduzir esses riscos em indicadores financeiros. Hoje, 71% das organizações informam quais métricas econômicas podem ser afetadas pelos impactos ambientais, sendo a receita o indicador mais citado. Para o CDP, esse avanço demonstra que as mudanças climáticas deixaram de ser tratadas apenas como uma questão de sustentabilidade e passaram a integrar a gestão financeira e estratégica das empresas. Apesar desse avanço, a organização observa que a maioria das companhias ainda concentra suas análises no curto prazo. O número de empresas que calcula riscos com horizonte de até dois anos é quatro vezes maior do que aquelas que estimam impactos para períodos de até 25 anos. Segundo o relatório, isso indica que boa parte das perdas futuras relacionadas à transição para uma economia de baixo carbono provavelmente ainda está subestimada. Caso as empresas não avancem na gestão desses riscos, o custo pode ser elevado. O CDP estima perdas acumuladas de US$ 1,24 trilhão até 2030 decorrentes de riscos relacionados ao clima, à água e às florestas. Até 2040, esse montante pode alcançar US$ 1,77 trilhão. Eficiência gera retorno rápido O levantamento também analisou quais iniciativas apresentam maior retorno financeiro. A redução de resíduos e o reaproveitamento de materiais aparecem como as medidas mais rentáveis, gerando retorno médio de US$ 3,90 para cada dólar investido, com prazo mediano de recuperação do investimento de apenas 1,3 ano. Na sequência vêm os projetos de eficiência energética nos processos produtivos, cujo retorno médio é de US$ 3,60 por dólar investido e payback de aproximadamente 2,1 anos. Considerando todas as iniciativas de redução de emissões analisadas, cada dólar investido gera, em média, US$ 2,40 de retorno ao longo da vida útil dos projetos, podendo chegar a US$ 7 em alguns casos. Brasil fica abaixo da média mundial Embora todos os países analisados apresentem retorno positivo sobre investimentos voltados à mitigação dos riscos ambientais, o Brasil aparece abaixo da média global. Enquanto o retorno mediano global para investimentos destinados à gestão de riscos ambientais é de US$ 10 por dólar investido, no Brasil esse indicador é de US$ 4,5. Na Ásia, por exemplo, a mediana chega a US$ 11 na China e a US$ 9 no Japão. Na Europa, o retorno é de US$ 10 no Reino Unido, US$ 8 na França e US$ 7 na Alemanha. O relatório não atribui uma causa específica para o desempenho brasileiro, mas sugere que diferenças na composição setorial, no estágio de maturidade das estratégias climáticas e na forma como as empresas identificam e mensuram riscos ambientais podem influenciar os resultados.
Empresas economizaram até US$ 94 bilhões com medidas para reduzir emissões, aponta CDP
Ações como redução de resíduos, reaproveitamento de materiais e eficiência energética ajudaram empresas a cortar custos e reforçam que enfrentar a crise climática também pode trazer ganhos financeiros






