Certame era esperado pelo setor há três anos e chegou a ser previsto para ocorrer em 2025. Depois de uma disputa judicial, ele contratou o maior volume de potência da história do setor Setor esperava leilão de reserva de capacidade há três anos. Realizado em março, foi alvo de ações no TCU, Justiça Federal, MPF e no Cade — Foto: Custódio Coimbra/agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 20:45 Leilão de Energia pode elevar conta de luz em R$ 48 bilhões anuais O leilão de reserva de capacidade de energia, realizado em março e questionado na Justiça, poderá aumentar a conta de luz em R$ 48 bilhões anuais até 2032. Ele visa garantir energia em picos de demanda, contratando usinas de prontidão. A medida foi criticada por possíveis aumentos tarifários, mas defendida para segurança elétrica. A Aneel já aprovou parte do leilão, mas o MPF busca suspender homologações pendentes. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O leilão realizado em março deste ano para contratação de reserva de capacidade de energia, que foi questionado na Justiça, pode gerar um custo anual de R$ 48 bilhões para os consumidores, o que significará uma conta de luz mais cara nos próximos anos. Esse tipo de certame é feito para que o país tenha energia disponível em momentos de pico de demanda, ou seja, na prática, o governo contrata usinas para ficarem de prontidão. O leilão era esperado pelo setor há três anos e chegou a ser previsto para ocorrer em 2025. Depois de uma disputa judicial, ele contratou o maior volume de potência da história do setor, com estimativas de investimento de R$ 64,5 bilhões. Diferentemente de um leilão tradicional, em que se compra o volume de energia, esse tipo de concorrência trata da disponibilidade de potência. O sistema paga para que a usina tenha capacidade de fornecer energia rapidamente ao ser acionada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Especialistas argumentam que o leilão era necessário para garantir a segurança do sistema elétrico nacional. Mas, desde a sua realização, ele já foi alvo de questionamento no Tribunal de Contas da União (TCU) , na Justiça Federal, no Ministério Público Federal (MPF) e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão que regula a concorrência no país. Nesta semana, porém, o subprocurador-geral do Ministério Público junto ao TCU, Lucas Furtado, encaminhou ofício ao ministro Jorge Oliveira no qual abandona a posição anterior de defender a suspensão do leilão. Ele afirma que errou ao atribuir, em sua manifestação inicial, peso predominante ao preço a ser pago pelos consumidores em detrimento da estabilidade e da segurança do sistema elétrico, “que são essenciais tanto para os consumidores quanto para os investidores que atuam em um horizonte de longo prazo”. O que pesa na conta Estudo da TR Soluções estima um custo anual de R$ 48 bilhões nas tarifas de energia de consumidores até 2032. Nos cálculos da consultoria, isso significa que o país contratou um aumento já certo em seis anos, de 7,5% na conta de luz do consumidor residencial. Os efeitos devem ser mais fortes a partir de 2029, quando a maioria das usinas entrará em operação. No entanto, já será possível verificar aumento médio de 0,4% na conta de luz este ano, afirma o diretor de Regulação da TR Soluções, Helder Sousa. As primeiras usinas começam a funcionar em agosto. — O impacto deve começar a ser percebido nas contas a partir de agosto deste ano, este de 0,4%. Em 2028, vamos ter a maior parte da energia contratada entrando, e aí vai funcionando como uma escadinha, com o resto sendo inserido até 2031. E aí em 2032 chegaremos ao aumento médio de 7,5%. — afirma Sousa. Torres de transmissão na altura do Arco Metropolitano, no Rio — Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo A fatura deve subir porque os consumidores terão de arcar com R$ 515,7 bilhões em receitas aos geradores de energia vencedores do leilão ao longo dos contratos. Cerca de 60% do preço da conta de luz paga pelos consumidores reflete o pagamento da geração, transmissão e distribuição da energia consumida pelo Sistema Interligado Nacional (SIN). É aí que entra o custo do leilão, na geração da energia com a contratação das usinas. O preço dos contratos pagos às empresas é diluído na conta de luz dos consumidores ao longo dos próximos anos. 7,5% É o reajuste esperado na conta de luz em 2032. Impacto do leilão será diluído ao longo dos anos com a entrada em operação de usinas que funcionam como segurança no sistema — Naquela conta de luz que a gente paga, que é um valor único por mês, cada pedacinho se refere a um custo do setor. Para a energia sair de uma usina no Norte do país para o Sudeste, é preciso pagar o custo das linhas de transmissão — explica Filipe Soares, diretor de Consultoria na Thymos Energia. Não é o único fator a pesar na fatura. Cerca de 10% do valor da conta de luz é resultado do custo de subsídios do setor, reunidos na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Trata-se de um superfundo financiado principalmente pelos consumidores por meio das tarifas de energia. Esse fundo custeia descontos a pessoas de baixa renda e benefícios para fontes como solar e eólica. Os impostos que incidem sobre a conta de luz, como Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que é estadual, e PIS/Cofins, que são federais, respondem por outros 30%. E, correndo por fora, há ainda o impacto eventual da bandeira tarifária, que pode resultar em acréscimo na tarifa a partir do patamar amarelo. Esse mecanismo prevê uma taxa extra variável a ser cobrada quando o sistema elétrico precisa acionar fontes de geração mais caras, como as termelétricas, para garantir o abastecimento. Isso costuma ser feito em períodos de estiagem, quando o nível dos reservatórios está mais baixo. Coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro, afirma que há um consenso quanto à necessidade de contratação do leilão. Segundo o especialista, o volume elevado contratado é resultado do adiamento do processo, que precisou absorver em apenas um certame o equivalente a cerca de três anos de crescimento da necessidade de potência de energia. “O impacto deve começar a ser percebido nas contas a partir de agosto deste ano, este de 0,4%. Em 2028, vamos ter a maior parte da energia contratada entrando, e aí vai funcionando como uma escadinha, com o resto sendo inserido até 2031. E aí em 2032 chegaremos ao aumento médio de 7,5%” - Helder Sousa, diretor de Regulação da TR Soluções. Além disso, quanto mais o leilão atrasa em relação ao início de operação das empresas, maior é o custo cobrado nos contratos. No entanto, ele destaca que o valor expressivo decorre também, em grande medida, de fatores estruturais que têm causado um descompasso entre a geração e a demanda de energia. O sistema tem registrado aumento no consumo de energia nos últimos anos. O pico da demanda se dá principalmente no fim da tarde e começo da noite, quando usinas de energia solar e eólica têm baixa produção. A própria mudança na matriz, com maior presença de fontes renováveis, tem causado um paradoxo: de modo geral, sobra energia no sistema, mas ainda assim é preciso contratar novas usinas para atender a demanda nos horários de pico. — O crescimento gradativo da energia eólica e solar na matriz elétrica significa um novo paradigma, alterando a dinâmica de operação do sistema, com energia que você não consegue estocar — diz Nivalde de Castro. Na avaliação da Abrace, associação que representa grandes consumidores de energia, o volume contratado no leilão foi além do necessário e deve gerar custo de R$ 40 bilhões ao ano aos consumidores, impactando a tarifa média de energia elétrica dos brasileiros em aproximadamente 10%. O diretor de Energia Elétrica da associação, Victor Hugo iOcca, aponta que o aumento é ainda maior para o setor produtivo, o que faz com que os efeitos para o consumidor ganhem outra proporção: — Todo brasileiro gasta duas vezes mais nos produtos e serviços que consome no dia a dia do que na sua conta de luz. Se você tem impacto médio de R$ 24 nas famílias de até dois salários mínimos, essa mesma família vai gastar outros R$ 50 a mais, no mínimo, nos produtos e serviços que consome naquele mês também. Ações na Justiça Já a Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget) afirma que a realização do leilão de reserva é uma medida essencial para garantir segurança à gestão do sistema elétrico nacional. A entidade usa um estudo da Thymos para sustentar que o país teria custo estimado de blecautes e racionamentos de R$ 970 bilhões ao longo dos próximos 15 anos, caso o certame não fosse realizado. “A confiabilidade do sistema elétrico é um bem público dos brasileiros. A validação do Lrcap (nome do leilão) é um processo necessário para assegurar a confiabilidade do sistema. Fontes renováveis precisam coexistir com a geração a gás natural para dar segurança ao sistema e acompanhar o crescimento econômico. Arriscar a segurança energética do país é colocar o futuro da economia do Brasil em um caminho perigoso e incerto”, disse a associação.
Leilão de energia vai gerar custo extra de R$ 48 bi por ano na conta de luz: impacto será de 7,5% em 2032
Certame era esperado pelo setor há três anos e chegou a ser previsto para ocorrer em 2025. Depois de uma disputa judicial, ele contratou o maior volume de potência da história do setor
















