Embora não sejam as únicas causas dos eventos no enclave, aproximação entre Marrocos e EUA e Israel, e divergências entre Madri e Washington dão tons geopolíticos ao episódio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imigrantes abrigados em quadra fornecida por associação de moradores e pela Cruz Vermelha em Ceuta, enclave espanhol no norte da África — Foto: Antonio Sempere / AFP Há pouco mais de uma semana, milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta. As imagens de migrantes nadando até a pequena cidade espanhola no Norte da África chocaram o mundo. A narrativa imediata apontou para mais uma crise migratória. Mas essa explicação é insuficiente. Ceuta foi, principalmente, uma crise geopolítica. As fronteiras não são apenas linhas traçadas nos mapas. São espaços onde as relações de poder tornam-se visíveis. Ceuta não é exceção. Embora tenha uma superfície semelhante à da Zona Sul carioca, ocupa uma posição privilegiada no Estreito de Gibraltar, um dos principais choke points do mundo. Todos os anos, cerca de 100 mil embarcações atravessam a passagem, por onde circulam aproximadamente 10% do comércio marítimo mundial. Petróleo, mercadorias, cabos submarinos, navios militares e cadeias logísticas convergem nos 14 km que separam a Europa da África, o Atlântico do Mediterrâneo e, em muitos sentidos, o Norte do Sul Global. Centenas de migrantes entram em Ceuta após cruzar fronteira com Marrocos Durante décadas, acreditou-se que a globalização, ao acelerar o tempo, relativizaria a importância do espaço. Agora parecemos caminhar na direção oposta. Quanto mais intensos se tornam os fluxos globais, mais estratégicos se tornam os lugares por onde esses fluxos necessariamente passam. É por isso que Gibraltar, Suez, Ormuz, Bab el-Mandeb, Malaca, Panamá e, cada vez mais, o Ártico e o Estreito de Magalhães estão voltando ao centro da política internacional. No século XXI, as grandes potências não competem apenas por territórios. Competem pelo controle da circulação: de mercadorias, de energia, de dados, de pessoas e de capitais. Mais do que controlar grandes espaços, trata-se de controlar os pontos através dos quais o mundo se conecta. É nesse contexto que o Estreito de Gibraltar — e, consequentemente, Ceuta — recupera uma importância estratégica que vai muito além da relação entre a Espanha e o Marrocos. O interesse renovado das grandes potências pelos grandes corredores marítimos e terrestres faz parte de uma tendência e de um contexto. Mas a geopolítica não se resume aos fluxos. Nas últimas décadas, o Marrocos passou a conduzir uma política externa convencional mais assertiva: aprofundou sua parceria com os EUA e Israel, ampliou sua presença na África Ocidental e transformou a migração em um instrumento assimétrico de pressão. Não por acaso, muitos compararam os recentes acontecimentos à Marcha Verde de 1975, quando centenas de milhares de marroquinos atravessaram a fronteira do então Saara Espanhol com o objetivo de anexá-lo. Agora os contextos históricos são diferentes, mas o princípio estratégico é semelhante: instrumentalizar populações civis para produzir efeitos territoriais sem recorrer ao uso da força. Seria exagerado atribuir a crise de Ceuta, exclusivamente, às recentes divergências entre Madri e Washington. Mas também seria ingenuidade ignorá-las. Enquanto a Espanha acumulou, nos últimos anos, diferenças importantes com os EUA — em questões de segurança e de defesa — o Marrocos consolidou-se como um dos principais parceiros estratégicos dos EUA no Norte da África e continua contando com o respaldo do governo de Donald Trump à sua posição sobre o Saara Ocidental. As fronteiras voltam a ocupar um lugar central na competição entre Estados e na organização da economia global; os pontos de estrangulamento recuperam seu valor estratégico, e a mobilidade humana reaparece como um instrumento de pressão na política internacional. Ceuta, portanto, não é apenas uma crise migratória. É um lembrete distante de que, quando a História acelera, a geopolítica reemerge. *Juan Agulló é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana e membro do Comitê Diretivo do Conselho Latino-americano e Caribenho de Ciências Sociais
Artigo: Crescente importância estratégica do Estreito de Gibraltar explica por que recente crise em Ceuta vai muito além da imigração
Embora não sejam as únicas causas dos eventos no enclave, aproximação entre Marrocos e EUA e Israel, e divergências entre Madri e Washington dão tons geopolíticos ao episódio














