A Espanha não viveu apenas uma crise imigratória nos últimos dias. A onda de mais de 72 mil marroquinos que cruzaram a fronteira e entraram no enclave de Ceuta foi muito mais que uma marcha de jovens exaustos em busca de um futuro. Incentivado pelas redes sociais e pela desinformação, o ato, que deixou ao menos 75 mortos, ganhou contornos geopolíticos, com grupos a instrumentalizar o desespero da multidão, inclusive para pressionar politicamente governos progressistas, obrigar Madri a repensar sua posição em relação a temas territoriais e provocar um racha na Europa. Embora cerca de 70 mil marroquinos tenham retornado a seu país sem pisar no outro lado do Mediterrâneo, o acontecimento caiu como uma bomba política no continente. De um lado, a Espanha se declara abandonada pelos parceiros do bloco. De outro, governos de extrema-direita usaram o episódio para fustigar as políticas de imigração de lideranças progressistas.
A Itália de Giorgia Meloni suspendeu a livre circulação entre os dois países, garantida pelo Acordo de Schengen, e passou a usar as imagens da tomada de Ceuta para defender o endurecimento das regras de imigração. Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, por sua vez, acusou Meloni de se aproveitar da crise, por conta da campanha eleitoral de 2027. A decisão de Roma, segundo os espanhóis, teria sido movida por “preconceito, fake news, ignorância e interesse político”. Para a Espanha, Ceuta não faz parte de Schengen e aqueles marroquinos jamais poderiam ter chegado à Itália. Fechar a fronteira, como fez Roma, não passa de populismo.













