O mundo assistiu atônito às imagens da chegada de cerca de 60 mil migrantes do Marrocos ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, no fim da semana passada. As cenas, além de dramáticas por si só, expõem o perigo da desinformação nas redes sociais e lançam luz sobre os dividendos políticos de uma tragédia humanitária.
O ato desesperado de dezenas de milhares de pessoas ocorreu após viralizar a falsa notícia de que a fronteira entre Marrocos e Ceuta estaria aberta. A origem mais óbvia do boato é uma decisão expedida em 8 de julho pelo Supremo Tribunal da Espanha a impor mudanças no tratamento de migrantes interceptados. A fronteira, porém, jamais esteve escancarada.
A sentença fixou que as devoluções sumárias — sem procedimento administrativo — de quem cruza irregularmente a fronteira não se aplicam aos casos de entrada pelo mar. A manipulação nas redes, entretanto, rapidamente transformou a decisão em uma ordem para a Espanha não mandar de volta aos seus países de origem aqueles que chegassem a Ceuta por via marítima. No TikTok, contas vendiam até equipamentos de mergulho voltados aos interessados na travessia.
Ainda que não se menospreze o poder da desinformação nas plataformas digitais, soa pouco crível que essa mentira tenha sido suficiente para produzir tamanha mobilização. Parte dos especialistas também arrisca que as crises migratórias e a suposta tolerância de Marrocos serviriam na prática como um instrumento de pressão diplomática — Rabat reivindica a soberania sobre Ceuta, cobrança rechaçada por Madrid.











