Os acontecimentos da semana passada também abalaram a Europa politicamente, expondo mais uma vez as divisões sobre a questão da migração, que é muito sensível no continente. Vídeos mostram imigrantes do Marrocos chegando a nado em Ceuta, cidade da Espanha Seja qual for a causa, o primeiro-ministro da Espanha está irritado com a resposta de outros países da região. Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), criticou alguns membros da União Europeia por "atacarem" a Espanha nesta crise, fazendo politicagem em vez de demonstrar apoio. Ele se referia à Itália, acima de tudo. O partido de direita radical Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália), da primeira-ministra Giorgia Meloni, não perdeu tempo em publicar imagens de migrantes correndo pelas ruas de Ceuta. "Este é o modelo Sanchez que a esquerda italiana tanto aprecia", anunciava uma legenda do vídeo. A medida enfureceu o governo em Madri. Na visão da Espanha, a crise foi controlada e Ceuta não faz parte do espaço Schengen, portanto os migrantes marroquinos não teriam como avançar à Europa continental sem serem contidos antes. Meloni sabe disso. Mas ela enfrenta eleições no próximo ano, com sua coalizão perdendo terreno para um partido novo e fortemente anti-imigração. Esta era uma oportunidade para demonstrar força e recuperar votos, e ela a aproveitou. Espanha expulsa imigrantes de Ceuta e instala barreira no mar para evitar novas chegadas A Itália não é o único país que vê a Espanha como leniente em relação à imigração. O governo espanhol é pragmático: a Espanha está envelhecendo e precisa de trabalhadores. O próprio Sánchez afirma que o motivo real da chegada dos imigrantes seria uma decisão recente do Supremo Tribunal de Justiça da Espanha. Pela decisão, aqueles que entram pelo mar não podem ser repelidos imediatamente. O primeiro-ministro argumenta que essa informação foi deturpada por traficantes de pessoas para prometer um caminho fácil para a Europa. Mas a multidão que se dirigia para Ceuta não precisou pagar contrabandistas, pois a maioria era marroquina e a rota é bem conhecida. A mensagem sobre a decisão da Justiça espanhola se espalhou pela internet. Migrantes mostraram a repórteres publicações em redes sociais com pessoas gritando "A Espanha está aberta". Diversos relatos que verificamos mostram jovens em trajes de mergulho e nadadeiras ou já nadando, além de fotos tiradas já em Ceuta. Algumas das contas online estão ativas há apenas algumas semanas. Várias têm dezenas de milhares de curtidas. Mas todas as promessas nas postagens eram falsas. Espanha anunciou que 25 mil imigrantes já retornaram de Ceuta para o Marrocos Afinal, o que aconteceu? Será que os migrantes foram usados politicamente, como aconteceu há alguns anos em Belarus, por exemplo? Se sim, quem estaria por trás disso? Por enquanto, só estamos percebendo quem foram os beneficiados com tudo isso. A Rússia também está comemorando — já que adora o caos e a divisão na Europa. Qualquer coisa para enfraquecer os aliados da Ucrânia. Quanto a Marrocos, o país culpa "organizações criminosas". Mas seus guardas de fronteira certamente viram as multidões se formando. A última vez que algo semelhante aconteceu, embora em menor escala, foi quando Espanha e Marrocos entraram em conflito por causa do Saara Ocidental, uma antiga colônia. Há novas tensões no ar neste momento. Sánchez nega veementemente que o Marrocos tenha sido culpado pelo ocorrido, dizendo que o governo marroquino é "um bom aliado". Mas seus críticos dizem que ele está apenas apaziguando os ânimos e que ele deveria ser mais agressivo. Espanha instala barreira inflável no mar para impedir mais chegadas a Ceuta Resultados Por enquanto, a Espanha está empenhada em proteger Ceuta contra novos incidentes. Na sua reunião, os ministros do Interior da União Europeia devem discutir o reforço das fronteiras externas, o que dará impulso à direita populista. Portanto, nenhuma grande mudança. Com exceção das dezenas de jovens que partiram para o mar, perseguindo uma visão que viram online, e que agora estão sendo enviados de volta para Marrocos em caixões.
Como a crise migratória da Espanha gerou uma tempestade política | G1
A súbita invasão de enclave espanhol por milhares de migrantes marroquinos semana passada abalou alicerces da União Europeia ao expor divisões profundas.










