Milhares de migrantes continuam a cruzar a fronteira entre Espanha e MarrocosGoverno espanhol anunciou o envio de soldados para auxiliar a Guarda Civil a 'manter a segurança' em Ceuta. Gerando resumoCerca de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira do Marrocos para Ceuta, um enclave da Espanha que fica no continente africano, desde quinta-feira, 31, de acordo com dados apresentados por Juan Jesús Vivas, chefe do governo local em Ceuta.PUBLICIDADE“A situação em Ceuta é absolutamente insustentável”, disse ele. Pelo menos 34 pessoas morreram até o momento na tentativa de chegar a solo espanhol, informou um porta-voz do governo da Espanha na quinta-feira.A cidade é um dos únicos locais no continente africano que fazem parte oficialmente da Europa e é vista como porta de entrada para imigrantes. O episódio é considerado uma das maiores travessias em massa nos últimos anos.PublicidadePara controlar a situação, o governo da Espanha mobilizou as Forças Armadas para o enclave. A situação provocou críticas da oposição conservadora do país, que defende uma política mais linha-dura em relação a imigração. Imigrantes retornam ao Marrocos depois de cruzarem a fronteira para Ceuta, enclave espanhol no territírio africano Foto: Jorge Guerrero/AFPPor que Ceuta é um ponto crítico de travessia?Situada em uma península de cerca de 10 quilômetros de extensão na costa norte do Marrocos, Ceuta é um enclave espanhol protegido por uma cerca dupla e pela presença de forças policiais e paramilitares da Espanha.Essa cidade, juntamente com Melilla — outra cidade autônoma espanhola situada mais a leste, ao longo da mesma costa —, abriga as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África.PublicidadeIsso significa que ambas as cidades são locais onde imigrantes em busca de melhores condições de vida — muitos deles vindos do Marrocos — frequentemente tentam cruzar a fronteira para entrar na Europa.Mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira para Ceuta ao longo de dois dias em 2021, por exemplo. Em 2022, pelo menos 23 migrantes morreram em um tumulto durante uma tentativa de travessia em massa em Melilla. Muitos outros morreram no mar.Para entrar, alguns migrantes nadam ao redor das cercas. Outros fazem travessias curtas e ilegais de barco do Marrocos até Ceuta. No entanto, a maioria corre e escala a cerca — ou usa corta-vergalhões para rompê-la — e, durante o processo, é frequentemente detectada por sensores de movimento e por guardas em torres de observação.PublicidadeO que aconteceu essa semana?Cerca de 60 mil imigrantes entraram em Ceuta nos últimos dias. O governo da Espanha informou, em comunicado, que estava enviando pelotões militares para reforçar a segurança na fronteira, ampliando o apoio aéreo e naval e deslocando equipes de mergulhadores para patrulhar as águas. A União Europeia ofereceu à Espanha apoio da Frontex — sua agência de controle de fronteiras e guarda costeira — para restabelecer a ordem.Um dia após a travessia em massa, milhares de jovens marroquinos permaneciam na praia de Ceuta. Alguns carregavam bolsas a tiracolo e sacolas plásticas. “Você pergunta por que todos vieram: porque não há trabalho no Marrocos”, disse Ajoub el-Arrot, de 24 anos, um marroquino recém-chegado, em entrevista ao jornal americano The New York Times.PublicidadeMembros das forças de segurança marroquinas reúnem-se no local de confrontos perto de Fnideq, na fronteira entre o Marrocos e a Espanha, em 31 de julho de 2026. Foto: Abdel Majid Bziouat/AFPEle supôs que as autoridades marroquinas haviam permitido a travessia para Ceuta para exercer pressão política sobre a Espanha. “Não sei por que nos deixaram passar”, disse El-Arrot, acrescentando: “Talvez tivessem algum motivo político. Abriram a fronteira e deixaram todo mundo passar”.O ministério do Interior espanhol afirmou posteriormente que 25 mil imigrantes retornaram ao Marrocos. Relação com MarrocosNos últimos anos, Marrocos se tornou um ponto de partida estratégico para imigrantes que buscam chegar à Europa e a Espanha tem dependido dos guardas de fronteira marroquinos para conter o fluxo de chegadas.PublicidadeO país europeu busca manter boas relações com o Marrocos, em parte para assegurar a cooperação do país vizinho na contenção da chegada de imigrantes. Após o episódio de travessia em massa ocorrido em 2021, autoridades espanholas afirmaram que o Marrocos via os imigrantes como uma espécie de moeda de troca, utilizando o controle sobre a movimentação deles na fronteira para obter vantagens financeiras e políticas da Espanha.Horas depois de os imigrantes começarem a chegar em massa a Ceuta naquele ano, a Espanha aprovou 30 milhões de euros em ajuda ao Marrocos para o policiamento da fronteira.Imigrantes retornam ao Marrocos a partir do enclave espanhol de Ceuta Foto: Antonio Sempere/APNa noite de quinta-feira, não estava claro o que havia motivado essa nova concentração de pessoas em Ceuta. Analistas afirmaram que era cedo demais para tirar conclusões, mas que o Marrocos poderia estar insatisfeito com os esforços recentes da Espanha para estreitar laços com a Argélia.PublicidadeO Marrocos não emitiu uma resposta oficial ao aumento de travessias, mas as autoridades pareciam estar intensificando os esforços para impedir que as pessoas chegassem ao norte do país, onde fica a fronteira com Ceuta. Na capital, Rabat, forças de segurança impediram alguns passageiros de embarcar em trens que seguiam nessa direção. Na sexta-feira, o serviço de trem de alta velocidade entre Rabat e a cidade de Tânger, no norte, continuava operando, mas os trens locais da rota haviam sido cancelados. Nas estações de ambas as cidades, membros das Forças Auxiliares monitoravam os viajantes.Por que essa travessia em massa é importante?A fronteira terrestre africana tem sido uma grande fonte de tensão política interna para o governo de esquerda do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, além de um ponto de atrito diplomático entre o Marrocos e a Espanha.Internamente, Sánchez tem buscado projetar a imagem de abertura. Ele tem acolhido imigrantes — especialmente latino-americanos que falam espanhol.PublicidadePessoas se reúnem no topo de uma colina perto de Bab Sebta, na fronteira entre Marrocos e Espanha — nas proximidades do enclave espanhol de Ceuta e da cidade marroquina de Fnideq —, em 30 de julho de 2026. Foto: Abdelmajid Bziouat/APFNo entanto, em relação a Ceuta, Sánchez tem sido alvo de críticas de opositores conservadores e contrários à imigração — que o acusam de leniência no controle de fronteiras.Críticos de direita aproveitaram a ocasião na quinta-feira para afirmar que o novo plano da Espanha — que oferece aos imigrantes sem documentos já presentes no país um caminho para a regularização — estaria atraindo a chegada de imigrantes ilegais.“Isso é uma invasão”, disse Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita Vox, acusando o governo de Sánchez de atrair deliberadamente esses imigrantes — os quais ele sugeriu, sem apresentar provas, serem criminosos, estupradores e potenciais eleitores de esquerda.PublicidadeO governo, por sua vez, deixou claro que o elevado número de travessias ilegais não fazia parte de seus planos.O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, caminha por Ceuta, um enclave espanhol que fica no continente africano Foto: Jorge Guerrero/AFPO que disse Sánchez?O primeiro-ministro afirmou nesta sexta-feira, 31, que a situação em Ceuta representa “uma violação e um ataque à integridade territorial da Espanha”.“O governo da Espanha está com a cidade de Ceuta”, disse Sánchez. “Entendemos o estado emocional e a situação de angústia que eles estão vivendo durante estas últimas horas.”PublicidadeO premiê atribuiu a crise migratória a uma “interpretação tendenciosa”, feita por “máfias do tráfico humano”, de uma recente decisão judicial sobre a repatriação de migrantes que chegam por mar.Saiba mais Vídeo: Milhares de migrantes chegam a nado em CeutaAo menos 34 migrantes morrem ao chegar à Espanha pelo mar; cerca de 60 mil entraram em CeutaSánchez diz que situação em Ceuta é ‘ataque à integridade territorial da Espanha’Segundo Sánchez, “nos últimos dias” houve uma “disseminação nas redes sociais, por meio dessas máfias”, de uma “interpretação tendenciosa” de uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha.O premiê afirmou que a decisão judicial prevê que “aqueles que entram em nosso território a nado, por mar, não têm direito à repatriação”. Segundo ele, essa “interpretação tendenciosa” é o que “se espalhou como fogo em palha nas últimas horas”.PublicidadeSánchez chegou a Ceuta na manhã desta sexta-feira para se reunir com forças de segurança na fronteira e, em seguida, com autoridades regionais, acompanhado do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska./com NYT
Por que a crise em Ceuta se tornou um problema generalizado para a Europa? Entenda
Península na costa norte do Marrocos, governada pela Espanha há séculos, tem sido palco frequente de travessias em massa de migrantes e de tensões políticas











