Há momentos em que a política deixa de ser disputa partidária e nos convoca a pensar que sociedade queremos ser. O debate sobre pessoas trans, pessoas homossexuais e direitos LGBT+ é um desses momentos.Não discutimos uma abstracção ideológica, mas pessoas concretas. Discutimos se o Estado deve garantir dignidade e igualdade a todos os cidadãos ou se, pelo contrário, legitima a discriminação. Nenhum governante tem obrigação de saber tudo. Mas tem a obrigação elementar de ouvir quem sabe. Em matéria de identidade de género, orientação sexual e dignidade humana, deve ouvir-se a ciência, a medicina, a psicologia, a bioética e as pessoas directamente afectadas.O que é inaceitável é legislar a partir do preconceito, tratar a diferença como ameaça e transformar minorias em instrumentos de combate político. A vergonha de uma decisão política não está em quem decide não saber tudo. Está em recusar aprender. Está em confundir responsabilidade com moralismo. Está em preferir slogans a evidência. Está em usar palavras como “família”, “crianças” ou “liberdade” para justificar medidas que podem aumentar sofrimento, isolamento e medo.A ciência não resolve todos os dilemas éticos, mas impede-nos de dizer disparates com solenidade. A identidade de género e a orientação sexual não são uma infecção cultural nem um capricho. São dimensões profundas da experiência humana, inscritas na biologia, no desenvolvimento e na história singular de cada pessoa. Por isso, as neurociências devem ser trazidas para este debate com rigor, não como slogan.
A anatomia cruel do normal
Quando a política tenta corrigir quem existe, a ciência e a cultura recordam-nos que a verdadeira deformidade pode estar na sociedade que exclui.













