A política sempre envolveu disputas morais —sobre justiça, igualdade, liberdade, costumes. O que tem se agravado nas últimas décadas é a tendência de converter divergências sobre eficácia de leis e projetos em diagnósticos sobre a índole moral do adversário.

Tal fenômeno é pernicioso ao debate público e, consequentemente, ao desenvolvimento nos mais diversos setores.

Quem discorda de cotas raciais é racista; opor-se à participação de pessoas trans em esportes femininos é transfobia; se você é contra o PL da misoginia, odeia mulheres, e, se é contra o fim da escala 6x1, faz parte da elite que oprime a classe trabalhadora.

Trata-se de atitude passional, infantil e puritana que interdita a avaliação racional de políticas —eficácia, custos e efeitos— em prol de um julgamento moral que incita o vitimismo de determinados grupos e a busca de louros com sinalização de virtude.

No caso da classificação do PCC e do CV como terroristas pelos EUA, viu-se o mesmo desatino. Quem aponta inexatidão na definição ou alerta para potenciais ataques à soberania do Brasil virou defensor de facções; quem acha necessária a decisão do governo Trump apoia o imperialismo ianque na América Latina.