É estranho nascer, crescer e viver em um país como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto como um posicionamento "ideológico" questionável, e não um mínimo princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.
Sabemos que a democracia implica debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.
A desigualdade se tornou tão comum que muita gente já não percebe a injustiça como uma emergência moral, mas como algo que nunca vai mudar. E se acomoda nesse pensamento individualista, criticando governos que combatem a fome e criam reais oportunidades para todos na saúde, educação, trabalho, segurança, moradia.
Parece normal ver regiões inteiras abandonadas, crianças desnutridas, líderes sociais assassinados, pessoas deslocadas, trabalhadores explorados e sistemas públicos em colapso, enquanto o debate político gira em torno do medo, da suposta ameaça à propriedade privada ou da fantasia de um inimigo ideológico que "destruirá o país". E se esconde atrás de factoides, como: a preocupação social vai "dividir casas", "criar banheiros únicos" e "fechar templos religiosos".







