Há mais de 20 anos, perguntei ao meu orientador de doutorado, um sueco, o que o levava a trabalhar com tanto afinco sabendo que quase 60% do seu salário acabaria, por via da coleta fiscal, nas arcas insaciáveis do Estado.
Respondeu-me que quanto mais ganhasse, mais contribuiria para o bem-estar de todos. Eu, vindo de latitudes menos crédulas, achei a resposta boba.
Sempre me pareceram frágeis estes sistemas econômicos fundados sobre uma ideia excessivamente benigna da natureza humana. Ora, a verdade é que o homem é um animal vaidoso, invejoso, mesquinho e ferreamente competitivo, sempre com a luneta posta no triunfo do vizinho para lhe rogar secretas pragas.
Com um punhado de moedas no bolso, o sujeito compra a ilusão de ter superado os piores fantasmas da infância, enquanto a sociedade, educadamente, finge não reparar na pequenez que continua a roer debaixo da roupa de grife.
Por outro lado, quando a riqueza individual atinge proporções bilionárias, ela passa a mercantilizar os bens comuns e o próprio meio ambiente, acelerando fenômenos de anomia e fragmentação comunitária, ao mesmo tempo que subverte a soberania dos Estados nacionais e desequilibra as forças do mercado em favor de uma oligarquia global.






