No mês em que se fala do orgulho de pertencer à comunidade LGBTQIA+, também é preciso discutir as diferentes formas de discriminação Bandeira LGBT na orla carioca — Foto: Lucas Tavares “O que me preocupa nos seus exames é a possibilidade de HIV.” Eu não lembro exatamente as palavras do médico, tamanho o estresse que aquela consulta me causou. Eu estava vivendo um momento muito delicado. Poucas semanas antes, havia tido a primeira experiência com um homem. Dentro de mim, uma confusão de emoções, com muita culpa. Ninguém sabia daquilo, tudo ainda era solitário. Tinham me indicado o médico como capaz de desvendar diagnósticos improváveis. Não o havia procurado por algo ligado à minha sexualidade, mas para entender o motivo de manchas vermelhas na pele com as quais eu convivia havia anos, e que nenhum outro médico soube explicar. Na primeira consulta, o senhor de cabelos brancos havia feito perguntas sobre meu histórico e rotina. “E, por acaso, você está vivendo um momento de estresse?” Hipocondríaco como sou, não consegui esconder e acabei contando sobre a “novidade”. Foi como uma primeira saída do armário, ainda que protegida pelo sigilo profissional. A reação dele foi fria, mas não estranhei, mesmo que por dentro meu coração disparasse. Quando me sentei de novo naquela cadeira, ele ficou olhando para o computador por um bom tempo. Meu chão desapareceu quando o silêncio foi quebrado pela afirmação de que as manchas não o preocupavam, mas sim “a possibilidade de HIV”. Tentei controlar um ataque de pânico enquanto ele me explicava a sua suspeita. Pedi para fazer um exame no mesmo dia, mas ele disse que eu teria que aguardar a janela imunológica de 90 dias. Ou seja, três meses de angústia, sem poder compartilhar com ninguém. Aquele gesto frio, em que a minha sexualidade pareceu orientar a suspeita, reforçou estereótipos do “ser gay” que me acompanhavam por muitos anos. Se em uma única relação com um homem eu já teria adoecido, então aquilo era mesmo errado e minha atitude havia me condenado. Nunca retornei àquele consultório e fiz testes de farmácia sozinho, toda semana, até o fim dos 90 dias. Todos negativos. Seis anos depois, eu tenho consciência do episódio covarde de preconceito que vivi, mas naquele momento eu nem consegui enxergá-lo. Quando conversei com amigos médicos sobre o episódio, todos me disseram que aqueles resultados não acendiam alarme para o diagnóstico. No mês em que se fala do orgulho de pertencer à comunidade LGBTQIA+, também é preciso discutir as diferentes formas de discriminação. Existem as mais barulhentas, com gritos, projetos de lei ou violência física. Mas também há o preconceito cotidiano e disfarçado, em que o intolerante se aproveita da vulnerabilidade do outro para agredir. Hoje eu também sei que um diagnóstico de HIV está longe de ser uma sentença de morte: o tratamento permite uma vida comum e interrompe a transmissão do vírus. O estigma e a desinformação, contudo, permanecem. Compartilho essa experiência não como denúncia, mas por saber que muita gente está, neste momento, sentada em uma cadeira parecida, ouvindo de quem deveria cuidar uma frase que ecoa o pior que já pensou sobre si. O orgulho é, além de celebração, a tentativa de mostrar a essas pessoas que elas não estão sozinhas na sala, como eu e muitos outros já estiveram.
O preconceito cotidiano e disfarçado
No mês em que se fala do orgulho de pertencer à comunidade LGBTQIA+, também é preciso discutir as diferentes formas de discriminação











