Sociedades florescem na diferença. Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizeres. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos; são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

É notável como essas passagens, singelas na expressão clássica do pensamento democrático, soam deslocadas em nosso tempo. De formas variadas, caminhamos no passado recente para a erosão das capacidades de convívio na diferença, substituindo-as pelo espírito de grupo, afirmação de certezas e satanização da divergência nos mais diversos espaços —do convívio familiar ao debate político, de escolas e universidades a ambientes de trabalho, de espaços públicos a meios de comunicação.As razões são, sabidamente, muitas. Nos deparamos neste período com a emergência de múltiplas crises compartilhadas —econômicas, ambientais, sanitárias, de confiança e efetividade da representação política. E vivenciamos uma profunda transformação da arena pública, migrada para ambiente digital marcado pela contradição de fazer-nos muito mais próximos e somar incontáveis vozes ao debate, ao mesmo tempo que moldado para fomentar conflito e fragmentação em lugar de escuta, diálogo construtivo e compreensão mútua. É difícil afastar a hipótese de termos até aqui falhado coletivamente na resposta a essas dinâmicas.