Basta um breve passeio pelas redes sociais ou um olhar rápido pelo espaço mediático para percebermos que a raiva se tornou a emoção mais lucrativa do nosso tempo. O ódio atrai cliques, partilhas, fideliza audiências e, de forma insidiosa, esmaga qualquer tentativa de nuance. Mas, no meio desta gritaria constante e coreografada, o que é que fica irremediavelmente pelo caminho? A resposta é o pensamento crítico de cada um de nós.A mecânica actual do debate público exige que escolhamos trincheiras de forma imediata. Querem-nos perfeitamente encaixados em pacotes ideológicos fechados, sempre de dedo no gatilho, prontos a disparar contra quem veste a camisola adversária. A dúvida passou a ser lida como fraqueza, o recuo ou a reflexão demorada, como traição. O resultado está à vista e é: construímos uma praça pública onde se reage muito por instinto, mas onde quase ninguém pára para pensar.Quando a agressividade e o escárnio dominam, a primeira vítima é a voz individual. O conforto artificial de pertencer a uma tribo cobra um preço alto. O medo do linchamento digital, do cancelamento ou da simples exclusão faz com que vozes ponderadas optem pelo conforto da autocensura. Lentamente, deixamos de dizer o que realmente pensamos para passar a repetir as frases feitas que sabemos que o nosso grupo vai aplaudir. E é exactamente neste vazio de escrutínio individual que as narrativas extremistas correm soltas, sem encontrarem qualquer resistência que não seja o ódio da barricada oposta.
Vestir a farda da tribo é o funeral do pensamento
Precisamos urgentemente de resgatar o direito à dúvida. Questionar as nossas próprias certezas absolutas não é um sintoma de ignorância, é a base da maturidade democrática.















