Há, em quase todos os lugares sociais da atualidade, um desconforto com as transformações em curso. Ele opera, em especial, a partir das transformações digitais, embora não circunscrito a elas. Fala-se em “aceleração dos tempos”, em “bolhas” sociais, em violência comunicacional e política, em “colapso da atenção”. Por baixo de cada uma dessas formulações há a mesma inquietação: a compreensão dos fluxos de informação no século XXI e das mudanças que eles impõem à vida em sentido comum. Não se trata, portanto, de discutir “verdade” e “mentira” como compartimentos estanques, nem de lamentar o avanço de uma sobre a outra, mas de compreender como essas duas categorias foram historicamente construídas, e por que as condições materiais dessa construção entraram em crise.

O conceito que melhor descreve o terreno em que verdade e mentira se constituem socialmente é o de regime de verdade, no sentido foucaultiano: o conjunto de procedimentos, instituições, autoridades reconhecidas e práticas que produzem, em cada sociedade, aquilo que pode ser dito como verdadeiro e aquilo que é desqualificado como falso. A política sempre operou nos limites entre essas duas categorias. Para fazer-se compreender, para provocar mudanças, para cristalizar continuidades. Construir o que conta como verdade, e desfazer consensos para deslocar enunciados rivais para a mentira, é poder político em sentido estrito.