Progressismo está cada dia mais apartado do resto da sociedade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Parada do Orgulho Gay em São Paulo — Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 22:18 Progressismo enfrenta estagnação ao essencializar lutas sociais A cultura progressista enfrenta desafios devido à fusão de grupos oprimidos, movimentos e políticas, dificultando o diálogo e adaptação. Conceitos como "lugar de fala" e "essencialismo estratégico" foram simplificados, levando à essencialização das lutas, onde criticar movimentos é visto como criticar as pessoas oprimidas. Isso isola o progressismo, tornando-o uma cultura estagnada e de nicho. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na cultura progressista há uma confusão consolidada entre os grupos oprimidos, os movimentos que os representam e as políticas propostas pelos movimentos. Negros, movimento negro e cotas raciais; pessoas trans, movimento LGBTQIA+ e banheiros inclusivos tornaram-se, cada um uma coisa só. A indistinção das três dimensões está impedindo o progressismo de escutar objeções, se desenvolver e se adaptar aos novos tempos, fazendo dele uma cultura estagnada e isolada — de nicho. Tudo parece ter origem na vulgata de dois conceitos sofisticados, da melhor tradição acadêmica: o de “lugar de fala” e o de “essencialismo estratégico”. Lugar de fala é um conceito que tem uma longa tradição na epistemologia das ciências sociais. Na cultura progressista vulgar, o termo passou a significar a prioridade — e, muitas vezes, a exclusividade — das pessoas oprimidas e sobretudo dos líderes dos movimentos das pessoas oprimidas de falarem sobre a opressão. A ideia aparece de maneira sofisticada num artigo de Linda Alcoff (“O problema de falar pelos outros”) e ganha vida própria em seguida, como vulgata. Para Alcoff, as hierarquias sociais produzem efeitos de verdade diferentes. Um mesmo discurso enunciado por um homem branco, mais velho e com formação universitária é socialmente considerado “mais verdadeiro” do que o mesmo discurso enunciado por uma mulher negra e pobre de quem o preconceito espera ignorância e desequilíbrio. Por esse motivo, se um discurso de denúncia do machismo for liderado por homens brancos, mais velhos e com formação universitária, ainda que seu conteúdo aponte e denuncie opressões reais, ele reiterará a hierarquia que está condenando — entra numa espécie de contradição performativa. Alcoff alerta, porém, que transformar a prioridade de fala do oprimido em regra dura tem custos, porque essencializa o grupo e retira a responsabilidade compartilhada de combater a opressão. O segundo passo vem do “essencialismo estratégico” discutido num artigo clássico de Gayatri Spivak (“Estudos subalternos: desconstruindo a historiografia”). Spivak diz que a consciência dos sujeitos subalternos — aqueles submetidos à opressão, como negros e mulheres — não pode ser inteiramente capturada e representada. É apenas nos textos que documentam a insubordinação desses grupos, produzidos pela elite letrada, que se obtém notícia dessa consciência. Mas a consciência e o registro que é feito dela pela elite não são a mesma coisa. Apesar da diferença, essa representação incompleta e distorcida pode ser “essencializada”, tomada como a verdade do grupo e usada estrategicamente como instrumento de emancipação — desde que reconhecida como simplificação provisória, com mero fim estratégico. Para o cientista político Yascha Mounk, é justamente esse alerta — de que a essencialização é falsa, provisória e deve permanecer sob supervisão e revisão — que se perdeu na vulgata, levando a uma essencialização de fato da luta dos movimentos, da confusão entre o que os movimentos pensam e o que as pessoas representadas por eles pensam. Se os movimentos passam a ser tratados como porta-vozes naturais dos grupos que representam e se suas formulações deixam de ser vistas como interpretações provisórias para se tornarem expressão autêntica da experiência desses grupos, torna-se difícil distinguir as pessoas oprimidas, as organizações que falam em seu nome e as políticas que essas organizações defendem. Numa cultura em que a política foi moralizada e a opressão virou a principal questão política, a confusão das três dimensões tornou os movimentos inatacáveis porque criticar o movimento social ou as políticas defendidas por ele é a mesma coisa que criticar as próprias pessoas oprimidas — é racismo, é misoginia, é homofobia ou transfobia. Uma democracia saudável precisa de uma esquerda vigorosa. Mas uma esquerda vigorosa precisa escutar e se desenvolver, respondendo às críticas. A confusão das três dimensões blinda o progressismo das críticas que recebe na sociedade mais ampla, empurrando-o para uma cultura de nicho na qual, paradoxalmente, tem a força máxima e está cada dia mais apartado do resto da sociedade.