Um novo estudo, publicado pelo painel científico do Parlamento Europeu (STOA, na sigla em inglês), defende que a criação de vastas Novas Florestas Primárias (NFP) na Europa Ocidental é não só urgente para travar a perda de biodiversidade e mitigar as alterações climáticas, como é plenamente viável nos dias de hoje.Entre os territórios analisados, a paisagem transfronteiriça do Gerês-Xurés — partilhada por Portugal e Espanha e que inclui o único parque nacional português avaliado, o Parque Nacional da Peneda-Gerês — destacou-se como uma das regiões com as condições ecológicas e socioeconómicas mais promissoras para acolher este projecto de escala monumental.O conceito de NFP refere-se a grandes áreas florestais de intervenção humana mínima, onde a natureza pode seguir a sua dinâmica puramente natural. O estudo intitulado As florestas primárias do futuro: a viabilidade da criação de novas florestas primárias na parte ocidental da Europa​ conclui que reservas com, pelo menos, 70 mil hectares são viáveis na Europa Ocidental, desde que reunidas as condições ecológicas, socioeconómicas e políticas adequadas.O Gerês já tem protecção, mas não a suficienteO Parque Nacional da Peneda-Gerês integra a Rede Natura 2000 e a Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, o que lhe confere um estatuto de conservação reconhecido. Porém, à luz das classificações internacionais da União Internacional para a Conservação da Natureza (​IUCN, na sigla em inglês), o parque enquadra-se na Categoria II — a categoria dos Parques Nacionais —, a qual, embora robusta, não é considerada protecção “estrita”.A distinção é relevante para compreender o que o estudo propõe. A Categoria II tem como foco a protecção do ecossistema, mas permite a sobreposição de múltiplas actividades, conciliando a conservação com o recreio, o turismo e a gestão cuidadosa do uso tradicional do solo pelas comunidades locais.A Categoria I — que se subdivide em Ia (Reserva Natural Estrita) e Ib (Área Selvagem) — exige um padrão radicalmente diferente: o território deve ser mantido no seu estado puramente natural, com acesso e perturbações humanas mínimos. Nestas áreas, a exploração comercial, a agricultura e a silvicultura são totalmente proibidas. O ecossistema é abandonado a si mesmo, permitindo-se assim que as dinâmicas naturais sigam o seu curso sem qualquer intervenção humana.É precisamente por esta razão que o documento considera o modelo actual insuficiente para formar uma NFP intocada. O estudo conclui que é viável criar uma reserva florestal de protecção estrita (Categoria Ib) com 17.518 hectares, unindo o lado Sul do Gerês, em Portugal, a Torneiros, em Espanha, mas para isso é necessário elevar o nível de restrição do núcleo central, deixando as restantes áreas do parque a funcionar como zonas tampão sob a actual Categoria II.O que falta para cumprir critérios?Actualmente, a vasta área candidata a núcleo central da NFP não satisfaz as regras de protecção estrita da IUCN por razões concretas. Em primeiro lugar, a região mantém actividades humanas activas: o pastoreio tradicional de gado e cavalos nos planaltos continua a decorrer e existem plantações activas de eucaliptos e coníferas no lado espanhol do território. Em segundo lugar, a área é atravessada por uma estrada com trânsito motorizado que liga aldeias de ambos os países, o que viola directamente as regras da Categoria I, que exige a exclusão de habitações permanentes e de circulação em núcleos com dimensão superior a dez mil hectares.Em suma, embora o Gerês possua protecção ambiental significativa, não dispõe ainda de um núcleo intocável e livre de gestão humana com a dimensão exigida — superior a dez mil hectares — para poder ser considerado, à data de hoje, uma floresta primária.Para esta paisagem transfronteiriça, o estudo propõe a criação de uma reserva de protecção estrita com 17.518 hectares, enquadrada na Categoria Ib da IUCN. Este núcleo intocável seria envolvido por uma zona tampão de 75.255 hectares — correspondente à Reserva da Biosfera — e por uma vasta zona de transição socioeconómica de 175.227 hectares.Do ponto de vista ecológico, “o Gerês-Xurés suporta uma elevada diversidade florestal, incluindo vestígios de florestas antigas e de longa continuidade dominadas pelo carvalho-alvarinho (Quercus robur) e pelo carvalho-negral (Quercus pyrenaica)”, descreve o estudo, além de ter uma baixa densidade populacional, com habitações concentradas sobretudo nos vales.Obstáculos a superarO caminho não está, contudo, isento de desafios. O estudo identifica o pastoreio contínuo de gado e cavalos nos planaltos como um factor que dificulta a regeneração natural, favorecendo as coníferas em detrimento dos carvalhos. “Não é claro se todos os processos-chave, particularmente a regeneração florestal, podem ser restaurados dado o pastoreio contínuo de gado e cavalos no planalto, que favorece claramente o desenvolvimento de árvores coníferas em detrimento das caducifólias (principalmente carvalhos, que ainda estão presentes como relíquias de floresta antiga)”, lê-se no documento.As plantações activas de eucaliptos e coníferas existentes no lado espanhol da reserva são outro entrave: sem acordos com os proprietários privados, o desenvolvimento natural ficará bloqueado. O documento propõe um abate faseado destas espécies ao longo de 30 anos para permitir a recuperação das árvores autóctones.A maior limitação socioeconómica é, porém, a existência de uma estrada com trânsito motorizado a atravessar a reserva estrita planeada — a EN 308-1 do lado português e a OR 312 do lado espanhol. Como esta via é a única ligação directa entre aldeias espanholas a norte e portuguesas a sul, o encerramento ao trânsito exigido por uma floresta primária intocada representa um enorme desafio logístico e social.O contexto europeuO estudo avaliou várias regiões da Europa Ocidental e concluiu que o complexo florestal transfronteiriço Bayerischer Wald-Šumava, entre a Alemanha e a República Checa, é o único território que cumpre inequivocamente todos os critérios rigorosos de selecção, possuindo já um núcleo de 21 mil hectares sob protecção estrita. O Gerês-Xurés integra o grupo de regiões promissoras que exigem ainda a resolução de conflitos específicos.Os autores sublinham que a experiência europeia demonstra que algumas décadas de gestão inicial direccionada — como a reversão de monoculturas, a redução do pastoreio excessivo e o reequilíbrio de espécies, através do apoio a predadores e da gestão de herbívoros — podem acelerar significativamente a transição para uma floresta auto-regulada.Em zonas densamente povoadas onde grandes NFP não são viáveis, o estudo propõe redes de reservas estritas de menor dimensão inseridas em paisagens multifuncionais — o modelo já aplicado na Reserva da Biosfera Vosges du Nord-Pfälzerwald, na fronteira entre o Nordeste da França e o Sudoeste da Alemanha — como alternativa eficaz para a conservação da biodiversidade florestal.O estudo apela ainda a um papel mais activo da União Europeia, tanto no financiamento de iniciativas locais e regionais, como na exigência de que os núcleos destas florestas gozem de protecção estrita equivalente à Categoria Ib da IUCN, garantindo a sua integridade a longo prazo.