Aprovada em 2024, a lei do restauro da natureza da União Europeia obriga os Estados-membros a tomar medidas vinculativas e escrutináveis de recuperação de ecossistemas degradados, tanto em terra como no mar.Sabemos que os ecossistemas saudáveis nos fornecem serviços aproveitados pela atividade económica, muitos dos quais não são pagos, como a presença de insetos polinizadores para a agricultura, ou de peixe para a pesca. Sabemos também que a perda destes serviços tem um custo económico e societal muito grande, daí a necessidade de ação. Mas essa ação custa dinheiro e regra geral temos dificuldade em decidir quem a pagará ou como iremos justificar à sociedade tamanha despesa, apesar de sabermos tratar-se de um investimento com retorno.O custo do restauro ecológico depende muito do ecossistema e do estado de degradação do mesmo, seja um carvalhal, um rio de montanha ou um sapal. E para que o trabalho de restauro não seja em vão, precisamos de assegurar que os ecossistemas restaurados não continuam a ser vítimas das pressões que os degradaram. Tudo isto entra para as contas. Não sai barato.Além disso, para que possamos beneficiar a recuperação precisaremos de ganhar escala – hectares de floresta, quilómetros de rios ou de orla costeira – sob o risco de não darmos pela diferença. No mar e na costa, as contas agudizam-se, mercê dos custos de trabalhar dentro de água salgada e da pressão das atividades humanas junto à orla costeira. Ainda assim, os dados de que dispomos dizem que vale a pena o investimento.Um concurso para projetos de mapeamento e restauro de pradarias de ervas marinhas foi agora lançado. Apoia até 180.000 euros por projeto, até perfazer um milhão, ou seja, 5,5 projetos em média. “Intervenções físicas e de restauro” é apenas uma das cinco tipologias de apoio, o que quer dizer que nem toda a verba vai para restauro propriamente dito.Se formos aos dados de projetos consolidados como o NatureScot ou o Project Seagrass (Reino Unido), facilmente vemos que o custo de restauro de pradarias de ervas marinhas como as que por cá existem podem muito facilmente ascender entre 100.000 e 250.000 euros por hectare, fora a monitorização pós-restauro. Isto quer dizer que o apoio agora proposto poderá restaurar, no máximo, entre quatro e dez hectares, divididos por cinco projetos, muito provavelmente em localizações diferentes.As pradarias marinhas em bom estado de conservação fornecem-nos serviços tão importantes como o sequestro de carbono, a retenção de sedimentos, a proteção contra a erosão ou o serviço de maternidade e de berçário para muitas espécies de peixes e mariscos que consumimos.Com os valores propostos, não ganharemos escala e os benefícios que podemos obter por voltar a ter estas pradarias de ervas marinhas em bom estado de conservação serão muito difíceis de perceber e justificar. Ainda recentemente o governo anunciou um investimento de 111 milhões de euros (cem vezes mais) para obras de proteção costeira devido aos temporais deste inverno. Obra pesada, da boa, rapidamente inaugurável e visível.Aceitar o restauro de ecossistemas e outras soluções de base natural exige escala. Ou aceitamos isso, ou estaremos tão só a patrocinar pouco mais do que peculiares formas de jardinagem.O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico