Em dezembro de 2022, no âmbito do Quadro Global da Biodiversidade, 196 países comprometeram-se com a meta “30x30”: proteger e restaurar pelo menos 30% dos ecossistemas marinhos, terrestres e de água doce até 2030. Em abril de 2026, alcançámos um marco validado pela ONU: mais de 10% do oceano global encontra-se agora integrado em Áreas Marinhas Protegidas (AMP) declaradas. Ainda assim, por detrás dos números, a realidade é mais complexa.A meta 30x30 nasceu como resposta direta à crise climática e à perda acelerada de biodiversidade. Sabemos que o oceano é um dos nossos aliados mais vitais face às alterações climáticas, pois absorve cerca de 25% das emissões de dióxido de carbono e retêm 90% do excesso de calor por elas gerado.Salvaguardá-lo é uma condição de sobrevivência para a sociedade e a economia, e o esforço conjunto de governos, comunidades e organizações de conservação está a gerar progressos e há mais razões para algum otimismo: a entrada em vigor do Tratado do Alto-Mar, em janeiro de 2026, abriu pela primeira vez a possibilidade de criar áreas protegidas em zonas do oceano fora da jurisdição dos países, que representam quase dois terços do mar.Mas muitos destes progressos ainda são sobretudo numéricos. De acordo com o Marine Conservation Institute, apenas 3,4% do oceano global está hoje plena ou altamente protegido. Isto significa que muitas das AMP existem apenas “no papel”, pois continuam sem gestão efetiva, financiamento de longo prazo ou níveis de proteção capazes de recuperar habitats, reduzir pressões humanas ou proteger espécies ameaçadas.A prioridade, por isso, não é apenas aumentar a área protegida. É garantir que essa proteção funciona. Para isso, precisamos de redes de AMP ecologicamente ligadas entre si, representativas e desenhadas com base no melhor conhecimento científico disponível. Estas redes devem também estar integradas na gestão sustentável dos restantes 70% do planeta, para que as atividades humanas fora das áreas protegidas não anulem os esforços de conservação. Ao mesmo tempo, importa reconhecer que a conservação e restauro da natureza podem e devem assumir soluções construídas com comunidades locais e adaptadas a cada território.Portugal tem uma responsabilidade particular neste esforço global. Pela vasta Zona Económica Exclusiva e pela ligação cultural profunda da população ao mar, o nosso país deve liderar pelo exemplo com políticas e ações robustas, ambiciosas e justas de conservação e restauro dos ecossistemas marinhos. Precisamos de ultrapassar a complacência fácil das metas formais, desenhar novas áreas validadas pela ciência e dotar as áreas existentes dos recursos financeiros e humanos necessários para fiscalização, governança e gestão eficazes.A menos de quatro anos de 2030, já não basta saber se conseguimos avançar, mas se o faremos bem. Chegar a mais de 10% do oceano global em áreas protegidas mostra que é possível avançar. O verdadeiro desafio é garantir impacto mensurável na conservação e recuperação dos ecossistemas marinhos.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990