A Articulação pela Restauração do Cerrado, criada em 2020 com a ambiciosa meta de recuperar 2 milhões de hectares do bioma até 2030, monitora hoje pouco mais de 31 mil hectares em processo de restauração. Decorridos mais da metade do prazo estipulado, o volume atual regenerado representa cerca de 1,5% do objetivo final. O avanço da restauração no bioma divide-se hoje em duas realidades. De um lado, estão os projetos visíveis, financiados por editais institucionais, fundos internacionais e filantropia. De outro, figuram as iniciativas voluntárias ou de cumprimento de obrigações legais conduzidas por empresas em propriedades privadas. Neste segundo caso, há uma lacuna histórica de dados: como as companhias gerenciam essas informações de forma interna e não as reportam em plataformas oficiais, a consolidação de números globais torna-se um desafio. Uma das empresas que investe na restauração do Cerrado é a Suzano, multinacional brasileira de papel e celulose. “Como uma empresa de base florestal e de capital natural, a Suzano depende diretamente da qualidade dos ecossistemas onde atua para garantir a continuidade e a competitividade do negócio no longo prazo. Por isso, a agenda ESG é parte integrante da estratégia corporativa e do próprio modelo de negócios da companhia”, diz Mariana Appel, gerente de sustentabilidade da empresa. A atuação se concentra no Mato Grosso do Sul, onde a Suzano mantém operação há mais de uma década e administra uma base florestal de 1,136 milhão de hectares, dos quais 327 mil hectares destinados à conservação. Nos últimos três anos a companhia iniciou a recuperação de 644 mil hectares e mapeou oito áreas classificadas como Áreas de Alto Valor de Conservação (AAVCs), com mais de 15 mil hectares, com registro recente de 283 espécies, incluindo animais ameaçados. Os investimentos da Suzano no Cerrado combinam restauração ambiental, desenvolvimento territorial e financiamento sustentável. Além disso, em novembro, a empresa firmou parceria com o BNDES para a restauração de 24 mil hectares em áreas de preservação permanente e reservas legais no Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia. O acordo prevê o financiamento de R$ 250 milhões, o maior volume de recursos aprovado até então no âmbito do Fundo Clima, para recuperação de vegetação nativa degradada no Brasil. “A restauração em larga escala depende de articulação com comunidades locais, produtores rurais, poder público e organizações da sociedade civil, o que demanda tempo, alinhamento de interesses e construção de confiança”, diz Appel, acrescentando ainda os desafios relacionados ao clima, como secas, incêndios e chuvas. Já a Aliança pela Restauração na Amazônia foi criada em 2017 e reúne mais de 180 membros dos setores público, privado, acadêmico e da sociedade civil. “Um gargalo para escalar a restauração na Amazônia é construir uma estratégia de engajamento do setor privado, que detém os maiores passivos, para que entendam a restauração não apenas como uma resposta ao cumprimento da legislação, mas também como oportunidade de compartilhar benefícios socioeconômicos com as populações locais”, afirma Marcelo Ferronato secretário executivo da entidade. Presente desde 1982 no município de Tailândia (PA), a Agropalma, produtora de soluções sustentáveis baseadas em óleo de palma, direciona cerca de R$ 4 milhões por ano a ações socioambientais na Amazônia. Em vez de focar em projetos isolados, financia uma matriz de atividades estruturadas em frentes distintas: segurança de reservas florestais, mapeamento contínuo da biodiversidade local e monitoramento científico para a conservação da anta brasileira. No campo acadêmico, os recursos subsidiam pesquisas internacionais de ecologia em parceria com as universidades Federal do Pará (UFPA) e de Bristol, no Reino Unido, além de custear ações de educação ambiental junto às comunidades do entorno da operação. Principal iniciativa da Eneva para a conservação da floresta amazônica, o projeto Raízes de Valor transformou a realidade socioeconômica de 93 agricultores familiares no interior do Amazonas. Desenvolvido em parceria com o Instituto Belterra nas cidades de Silves e Itapiranga, o programa promove o manejo sustentável de 43 hectares de sistemas agroflorestais. Os aportes de R$ 8 milhões desde 2021 impulsionaram a renda média das famílias em 190%, saltando de R$ 579 para R$ 1.680.