A corrida por créditos de carbono vem impulsionando projetos brasileiros de restauração florestal. Em maio, a Re.green realizou a primeira emissão de créditos de carbono de restauração da Mata Atlântica certificada pela Verra, gerados em 1.620 hectares restaurados no sul da Bahia para a Microsoft. Meses antes, a Mombak já havia fechado com o Google o maior acordo de remoção de carbono já firmado pela empresa, para compensar 200 mil toneladas de CO2. Por trás desses créditos há uma cadeia complexa. “O crédito não nasce quando a floresta é plantada”, diz Natália Renteria, diretora de Brasil da Silvania. Segundo ela, transformar restauração em crédito de carbono envolve anos de monitoramento, auditorias e certificações que validam quanto CO2 foi removido da atmosfera. O processo começa muito antes da emissão dos créditos, com a seleção de áreas e a definição do modelo de reflorestamento. Fernando Visser, diretor de desenvolvimento de negócios e recnologia da Re.green, explica que a primeira etapa é a originação da terra, que envolve análise fundiária, climática e ambiental. “Trabalhamos com uma grande base fundiária e realizamos uma filtragem extensa das propriedades”, afirma. Após a seleção da área, começa a estruturação da cadeia da restauração, com produção de mudas, preparo do solo e manejo florestal. Segundo Visser, os custos variam de R$ 2 mil a R$ 20 mil por hectare, conforme o modelo adotado. A fase de plantio pode durar de meses a dois anos, dependendo da escala e das condições climáticas. Depois do plantio, inicia-se a fase de manejo adaptativo, com monitoramento, replantio e adubação. Projetos de restauração voltados à geração de créditos de carbono são ativos de longo prazo. “Os primeiros créditos podem ser emitidos após cerca de três a quatro anos, quando a floresta atinge os critérios mínimos de biomassa exigidos pelas certificadoras”, explica Visser. Como as árvores continuam capturando carbono ao longo de seu crescimento, os contratos comerciais entre desenvolvedores e compradores costumam durar de 20 a 30 anos, embora o ciclo de vida dos projetos possa chegar a um século. Para Tomás Balistiero, COO da Mombak, a floresta gera “safras” sucessivas de carbono. “Todos os anos, a empresa mede o crescimento adicional das árvores e pode transformar esse incremento em novos créditos”, afirma. Isso exige monitoramento constante para medir biomassa e o crescimento das árvores por meio de imagens de satélite LiDAR e medições em campo. Annie Groth, responsável por relações de mercado da Verra, afirma que o processo de validação e certificação dos projetos envolve auditorias independentes e pode levar cerca de dois anos até a primeira emissão de créditos. “Os projetos certificados pela Verra precisam manter atividades por cerca de 40 anos e assegurar o armazenamento do carbono por um período total de 100 anos”, diz. Por exigirem investimentos mais altos e compromissos de longo prazo, os projetos de restauração florestal e remoção tendem a alcançar preços mais elevados no mercado voluntário de carbono. Para Henrique Pereira, COO e cofundador da WayCarbon, os créditos de remoção são considerados “premium” por atributos como permanência e cobenefícios. “Embora todo crédito represente uma tonelada de CO2 reduzido ou removido, compradores pagam mais por créditos com menor risco de reversão e maior integridade.” Um relatório publicado neste ano pelo Banco Mundial aponta que créditos de remoção foram negociados em média a US$ 14 por tonelada de CO2 e, contra US$ 1 a US$ 3 para os de conservação ou redução. Pereira cita como exemplo outra tecnologia de remoção: o biochar, carvão produzido a partir de resíduos orgânicos que transforma biomassa em carbono estável. “Os créditos de biochar já vêm sendo negociados acima de US$ 100 por tonelada”, afirma. Com a expansão do mercado voluntário de carbono, o Brasil reúne condições para se tornar um dos principais polos globais de remoção de carbono. Mas ainda há desafios. Para Renteria, o financiamento esbarra nas garantias aos investidores, já que ativos florestais sofrem riscos de sinistros como incêndios. Outro obstáculo é a questão fundiária, já que a restauração em escala exigirá projetos em diferentes perfis fundiários, incluindo áreas públicas e propriedades privadas.