Prática também passa por atuação junto às comunidades tradicionais e poderá ser usada para reduzir efeitos de eventos extremos climáticos, como o El Niño, afirmam especialistas Xique-xique: cacto comum é símbolo de resistência na Caatinga — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 19:06 "Recaatingamento: Recuperação da Caatinga Avança no Nordeste" O conceito de "recaatingamento", que visa a recuperação da Caatinga através da restauração da vegetação nativa e valorização das comunidades locais, ganha força no Nordeste brasileiro como política pública. Recentemente, o Consórcio Nordeste e o Senado Federal apoiaram a iniciativa, destacando seu potencial para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A prática é vista como essencial para revitalizar o bioma, que é um importante sumidouro de carbono, e para combater a desertificação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Bioma mais estigmatizado do Brasil, a Caatinga foi, injustamente, associada a paisagens secas e pobres de biodiversidade, mas isso está mudando. Enquanto estudos recentes comprovam a potência de um ecossistema 100% nacional, o conceito do “recaatingamento”, surgido no semiárido baiano, vem ganhando força de política pública. Recentemente, o Consórcio Nordeste, formado pelos nove estados da região, publicou uma carta aberta defendendo a incorporação dessas práticas. E, há duas semanas, o Senado Federal aprovou a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga, que aguarda apenas a sanção do presidente da República. Para ambientalistas, o “recaatingamento”, que une recuperação da vegetação nativa com valorização das comunidades tradicionais, será fundamental para reduzir efeitos locais das mudanças climáticas e de seu agravamento por fenômenos como o El Niño, que intensifica a seca no Nordeste. O conceito surgiu no semiárido baiano, entre as décadas de 1990 e 2000, nas cidades de Curaçá, Uauá e Canudos. À época, mulheres que realizavam a colheita do umbu, uma fruta nativa, notaram que suas árvores — os umbuzeiros — estavam envelhecendo sem renovação da espécie. Umbu: fruto bastante encontrado no semiário baiano — Foto: Reprodução Coordenador de projetos sociais do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Luís Almeida conta que, a partir daí, passou a ser difundida a noção de que era preciso resgatar a vegetação. O conceito de “recaatingamento” tem como pilar o cercamento de uma área para proteger as plantas nativas dos animais e o plantio de mudas com foco em geração de renda. Segundo Almeida, é fundamental que os moradores se tornem “agentes ativos na transformação”: — Se o bioma enfraquece, as condicionantes de reprodução da vida das comunidades locais ficam mais difíceis — explica o especialista. — Mas não basta chegar lá e só plantar uma muda. No sertão baiano, cercar a mata era algo inconcebível. Tradicionalmente, na região, os animais de rebanho como bodes e cabras circulam soltos se alimentando da vegetação. Mas, com a redução dessa cobertura devido a diversos fatores, entre eles o aumento da população de animais, estava ficando difícil encontrar árvores típicas como baraúnas e quixabeiras. Surgiu, então, a iniciativa de cercar áreas e trabalhar no manejo para acelerar a recuperação. Conceito de “recaatingamento” reúne ecuperação da vegetação nativa com valorização das comunidades tradicionais — Foto: Custódio Coimbra Atualmente, o Irpaa trabalha o “recaatingamento” em 45 comunidades do semiárido, o que corresponde aproximadamente a 900 famílias. O instituto também criou o Centro de Formação Dom José Rodrigues, em Juazeiro, na Bahia, que promove estudos sobre “Convivência com o semiárido” por meio de cursos e outras atividades formativas. Segundo o MapBiomas, quase 54% de todas as pastagens da Caatinga em 2024 já tinham mais de 30 anos de uso contínuo, o que pode comprometer sua regeneração. O órgão também informa que as pastagens representam 24,7% do bioma, e cerca de um terço disso já completou 40 anos ou mais de manejo ininterrupto. A preservação da Caatinga traz ganhos não apenas locais, mas para o Brasil. O bioma é um sumidouro de carbono. Segundo pesquisa do periódico Science of the Total Environment, em 2022, mesmo ocupando 10% do território nacional, a Caatinga respondeu por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do país. Consórcio Nordeste Na última sexta-feira, o Consórcio Nordeste apresentou uma carta aberta comunicando a decisão de incorporar o “recaatingamento” como chave para recuperação da vegetação. Formada pelos nove estados da região, a autarquia é um colegiado de governança voltado à integração de projetos sustentáveis. Segundo o documento, a Caatinga tem potencial de bioeconomia único. Doutor em Ecologia e membro da Câmara Temática de Meio Ambiente do Consórcio, Tiago Porto avalia que o bioma une o Nordeste em torno dos mesmos objetivos. — A Caatinga é uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas, e a gente precisa antecipar esse enfrentamento. Na visão do consórcio, “recaatingar” é também valorizar a Caatinga de pé, com seus produtos e as comunidades locais. O objetivo da autarquia, agora, é apresentar propostas de recaatingamento e buscar recursos internacionais na COP17 da Desertificação, na Mongólia, que ocorrerá em agosto. — A desertificação é a principal ameaça da Caatinga. Gera perda completa de produtividade ecológica e agrícola — afirma Washington Rocha, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do MapBiomas Caatinga.
Recuperação da vegetação nativa por 'recaatingamento' ganha força de política pública no Nordeste
Prática também passa por atuação junto às comunidades tradicionais e poderá ser usada para reduzir efeitos de eventos extremos climáticos, como o El Niño, afirmam especialistas










