Cerca de 12% da área total do bioma está em degradação crítica ou severa Com suporte para revitalização da terra, o casal José Severino e Cilene trouxe o verde para a propriedade e consegue produzir mesmo quando a chuva é escassa — Foto: Acervo pessoal Com 47 anos e um sítio de 3,5 hectares, José Severino de Lima acompanha a transformação do clima em Vertentes, município do agreste pernambucano a cerca de 150 km do Recife. As chuvas ficaram mais raras, o calor, mais intenso, e os invernos já não se parecem com os de sua infância. “Estão mais curtos e com menos chuvas do que no meu tempo de menino”, conta. “E o verão hoje é insuportável, com muito calor até de noite.” Mapeamentos científicos lhe dão razão. Na cidade vizinha de Santa Maria do Cambucá, 52% do território já está enquadrado nos níveis 4 e 5 de desertificação, os mais severos, segundo relatório da Sudene e do Observatório Nacional da Dinâmica da Caatinga. São áreas onde o solo perdeu parte importante de sua capacidade produtiva e de retenção de água. Segundo o estudo, cerca de 18% do território brasileiro está sujeito à desertificação, concentrada sobretudo no Nordeste. Nessas áreas, vivem aproximadamente 39 milhões de pessoas. A região suscetível ao fenômeno cresceu 170 mil km2 em 20 anos, uma área equivalente aos Estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Só na Caatinga, mais de 100 mil km2 já estão em degradação crítica ou severa - cerca de 12% da área total do bioma. “É a maior proporção entre todos os biomas brasileiros”, afirma o coautor do estudo Aldrin Pérez-Marín, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e correspondente científico do Brasil na Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). Uma das principais causas do fenômeno é a o desmatamento, que atinge 46% da Caatinga, de acordo com o MapBiomas. Pérez-Marín destaca o avanço da agropecuária, da mineração, da extração de lenha e de parques eólicos e solares sem planejamento adequado sobre o bioma, que quando denso estoca cerca de 3.500 toneladas de carbono por quilômetro quadrado. “Só o desmatamento do bioma lança na atmosfera cerca de 18 milhões de toneladas de CO2 por ano”, afirma o pesquisador. “Desmatar a Caatinga é, ao mesmo tempo, destruir patrimônio produtivo e queimar um ativo climático.” Não é o litoral que ajuda o sertão (...); é o sertão que faz a água chegar na torneira das grandes capitais” Reservatórios como o Castanhão, no Ceará, e o Pedra do Cavalo, na Bahia, que abastecem Fortaleza e Salvador, dependem de bacias hidrográficas ligadas ao bioma, como conta Sergio Leitão, diretor-executivo do Instituto Escolhas. “Não é o litoral que ajuda o sertão quando se trata do abastecimento de água; é o sertão que faz a água chegar na torneira das grandes capitais nordestinas”, diz. Uma nova lei, sancionada neste mês, propõe a Política Nacional da Recuperação da Caatinga, com um programa de restauração e a destinação regular de recursos federais para ações de recuperação ambiental, segurança hídrica e geração de renda no Semiárido. A próxima etapa é a regulamentação do programa. O Instituto Escolhas estima que a recuperação da Caatinga poderia gerar cerca de 465 mil empregos e um retorno econômico de R$ 29,7 bilhões ao longo de 30 anos, a partir de R$ 15,1 bilhões em investimentos com foco em sistemas agroflorestais. O modelo já é adotado, há cerca de dez anos, por José Severino e sua mulher, Cilene, em sítio em Pernambuco. Com apoio do Centro Sabiá e do programa Uma Terra e Duas Águas, da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), o casal instalou cisternas construiu pequenas barragens para armazenar água da chuva, abandonou as queimadas, recuperou o solo com matéria orgânica, reflorestou áreas degradadas e diversificou a produção, antes restrita ao feijão e milho, com espécies nativas, frutíferas e uma horta. “A terra aqui era só chão limpo. Hoje está tudo verde”, compara Lima. “E com as cisternas e as barragens não preciso mais sair às cinco da manhã, de burro, para buscar água a uma hora daqui.” Como ele e Cilene, cerca de outras 25 mil famílias receberam suporte de técnicos do Centro Sabiá na revitalização de pequenas propriedades. A instituição calcula ter implementado aproximadamente 5 mil sistemas agroflorestais ao longo de 30 anos. “Hoje a gente tem água, tem sombra, tem comida e consegue produzir mesmo quando a chuva não ajuda tanto”, diz Lima. “O tempo está quente, mas minha vida, muito melhor.”