Fazenda histórica tem dez vezes mais animais por área que a média do país em pleno semiárido e novas variedades ampliam a colheita em polo frutífero A pesquisa e a ousadia de produtores têm alterado o panorama da produção agropecuária no agreste nordestino e também em áreas de cerrado, superando dificuldades climáticas e condições desafiadoras impostas pela baixa fertilidade do solo. Uma das maiores conquistas é o uso da palma para alimentação animal. A lendária fazenda Carnaúba, em Taperoá, na região do Cariri paraibano, vem conseguindo produtividades mais altas do que em regiões de pastos a capim e que recebem muita chuva. “Nossa principal contribuição foi desenvolver um esquema de produção que dispensa a irrigação, mesmo com uma precipitação anual inferior a 450 milímetros”, diz Joaquim Pereira Dantas Vilar, um dos donos da propriedade. Ele e seus quatro irmãos, filhos de Manoel Dantas Vilar Filho, mais conhecido como Manelito Dantas, conduzem a operação da fazenda que está na família há nove gerações, desde 1791. Nos anos 1970, Manelito, juntamente com o primo e escritor Ariano Suassuna, iniciou ali a criação de cabras e, em seguida, a produção de queijos artesanais que hoje rendem prêmios. Com 5,5 mil hectares distribuídos entre três áreas integradas, a Carnaúba dedica-se à cria de bovinos zebu, guzerá, sindi e curraleiro pé duro, num total aproximado de mil cabeças, além de 3 mil caprinos e ovinos. O sistema de nutrição combina palma orelha de elefante, de origem mexicana e carro-chefe do processo, com o australiano capim buffel e outras leguminosas típicas do semiárido, permitindo que os animais enfrentem todo o período seco assegurando níveis de eficiência e produtividade muito acima da média brasileira. De acordo com Vilar, graças à palma, a taxa de ocupação na fazenda atinge dez unidades animais/ha, correspondendo a 4,5 mil kg de peso vivo, contra uma média brasileira ligeiramente abaixo de uma unidade/ha. O processo de colheita da palma foi aprimorado na fazenda. Depois de cortada, a palma in natura é lançada em um vagão que tritura a planta e já processa a mistura com um núcleo proteico também desenvolvido pela fazenda. O alimento é lançado a cocho para os animais, seguindo dosagens específicas para cada raça. A unidade Embrapa Maranhão avalia a integração do babaçu, uma palmeira nativa na região, com a pecuária bovina. De acordo com os pesquisadores Aelton Biasi Giroldo e Joaquim Bezerra Costa, os estudos têm mostrado que o sistema alcança produção média de 22 arrobas/ha/ano, com lotação média de 3,4 unidades animais/ha, mais que o triplo da média nacional. A palmeira, segundo os pesquisadores, estimula a recuperação dos pastos, sequestra carbono e amplia o conforto térmico dos animais, além do fruto trazer uma renda adicional para os produtores. De acordo com eles, a convergência entre pesquisa pública, inovação privada e políticas de fomento tem produzido “uma profunda transformação na agropecuária maranhense”. Nossa principal contribuição foi desenvolver um esquema de produção que dispensa a irrigação” Às voltas com temperaturas mais elevadas e maior ocorrência de eventos climáticos extremos, fruticultores do polo de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) têm investido em tecnologia, pesquisa e inovação. Tornaram-se frequentes o uso de estações meteorológicas e de sensores de umidade do solo, monitoramento remoto por satélite dos pomares e sistemas digitais associados à agricultura de precisão. Segundo Tássio Lustoza Silva Gomes gerente-executivo da Associação dos Produtores e Exportadores de Hortigranjeiros e Derivados do Vale do São Francisco (Valexport), a prática permite decisões mais eficientes na irrigação e no manejo nutricional e fitossanitário das plantações. Além disso, o uso de canais de inundação - a irrigação na região se expandiu após os anos 1990 -, com índice elevado de desperdícios de água, ficou para trás. Foram adotados sistemas de irrigação localizada por microaspersão e gotejamento, com uso crescente de automação. “Houve evolução significativa no manejo da irrigação, com adoção de sensores, monitoramento climático e softwares de gestão que permitem aplicar a quantidade exata de água necessária em cada fase do desenvolvimento das plantas”, diz Patrícia Coelho de Souza Leão, pesquisadora da Embrapa Semiárido. O polo produz cerca de 2 milhões de toneladas de frutas, com exportações na faixa de US$ 400 milhões, nos dados da Valexport. A produção de manga e uva cresceu pouco mais de 180% entre 2014 e 2024, para 1,242 milhão de toneladas e 851,48 milhões de toneladas, respectivamente. O impulso veio de variedades geneticamente mais adaptadas e produtivas desenvolvidas pela Embrapa, bem como de manejo adequado à região. De acordo com Leão, a Embrapa introduziu reguladores de crescimento na manga para estimular a floração e, portanto, a produção de frutos e, no caso das videiras, protocolos para aplicação da cianamida hidrogenada, produto que quebra a dormência das gemas e estimula a brotação das uvas de forma concentrada e uniforme. Produtores de caju, por sua vez, começam a receber a segunda geração de clones resistentes à seca. Enquanto a produtividade média no Estado é estimada em 450 kg por hectare/ano, a nova variedade, lançada em 2022, produz no mínimo 2 mil quilos, afirma Gustavo Saavedra Pinto, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical. Com mais de 40 mil ha de cajueiros espalhados pela Paraíba, pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte, os três maiores produtores do país, Saavedra estima que seria possível triplicar a produção nacional, hoje entre 120 mil e 140 mil toneladas anuais.