Nos doze meses até maio, a empresa Da Serra, especializada em compensação ambiental, trabalhava na restauração florestal de 140 hectares na região do Sistema Cantareira, o principal manancial de água para o abastecimento da região metropolitana de São Paulo. Trata-se de um crescimento de 12% em relação ao período anterior e de 55% em dois anos. A empresa foi criada há 14 anos, em Joanópolis, quase na divisa com o Estado de Minas Gerais. Pedro Matarazzo, sócio-diretor e um dos fundadores, lembra que o primeiro trabalho foi o plantio de 1.530 mudas no terreno de uma senhora que havia sido multada por ter feito a supressão de mata nativa sem autorização. “Nós compramos as mudas em outro município, Bragança Paulista (SP), porque em Joanópolis não tinha. Plantamos em uma semana, eu, meu sócio e um diarista”, conta Matarazzo. A segunda empreitada chegou logo depois e envolveu o plantio de 80 mil mudas. Hoje, além de desenvolver e executar projetos de reparação, a Da Serra produz as próprias mudas a um ritmo de 1,8 milhão por ano. A velocidade de crescimento da Da Serra espelha a importância que a restauração florestal ganhou no Brasil nos últimos anos. Apesar do avanço do setor, o déficit em relação ao que seria necessário para que o país cumpra suas metas ainda é grande. Números do Ministério do Meio Ambiente, apresentados na COP30, em Belém, apontam que há cerca de 3,4 milhões de hectares em processo de restauração no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). A área equivale a três quartos do território do Estado do Rio de Janeiro, mas ainda está bem abaixo da meta de 12 milhões de hectares prevista para 2030. Grande parte dessa área corresponde a áreas de vegetação secundária que avançam de forma espontânea sobre terrenos que deixaram de ser usados. “Essa é uma área que ficou improdutiva por alguma razão, foi abandonada e voltou como uma mata secundária. Temos que ver o que acontecerá com essa área daqui a dois, três anos”, diz André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. É preciso achar uma equação financeira que envolva o Estado como indutor” Um estudo da The Nature Conservancy mostrou que, do 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa recuperados na Mata Atlântica na última década, mais de 568 mil foram perdidos antes de atingirem a maturidade. Segundo Rubens Benini, líder da estratégia de restauração florestal da The Nature Conservancy para a América Latina, o problema decorre de uma contradição da lei que, embora não permita o corte de vegetação secundária, abre a possibilidade de corte em terrenos que estão em pousio há menos de dez anos. Os registros de recuperação a partir de projetos estruturados, embora mostrem um avanço contínuo, são bem mais modestos. Segundo dados do Observatório da Recuperação, do fim de 2025, há 204,2 mil hectares nessa situação. O número representa um aumento de 158% em relação a 2021 e de 33% na comparação com 2024. Para Eduarda Thurler, coordenadora de finanças e investimentos da WRI Brasil, para que a recuperação dos biomas se torne sustentável, é preciso que a restauração deixe de ser tratada apenas como obrigação ambiental e custo de conformidade e seja reconhecida como um setor econômico estruturado. “Essa mudança está em curso. A gente está no ponto de inflexão. A restauração está deixando de ser exclusivamente uma pauta ambiental e começando a ganhar uma dimensão econômica, climática e financeira”, diz. Thurler cita como exemplos desse movimento o surgimento de empresas especializadas, como a Re.green, que anunciou recentemente um projeto de geração de créditos de carbono para venda à Microsoft, e de fundos, como TGI, do banco BTG Pactual, que captou em abril US$ 1,24 bilhão para a restauração de 270 mil hectares. Para especialistas, porém, o setor ainda enfrenta gargalos. O maior deles é o modelo econômico. “É preciso achar uma equação financeira que envolva o Estado como indutor, mas que necessariamente traga o setor privado e o setor financeiro juntos. No Brasil, essa equação não está ajustada”, diz Guimarães. “O principal desafio talvez seja mobilizar capital quando só teremos o retorno com créditos de carbono ou mesmo com a exploração florestal sustentável anos à frente”, complementa Daniela Stump, professora de Direito Ambiental do Insper. Stump, porém, acredita que o setor deva receber um impulso quando o mercado internacional de carbono, previsto no artigo 6.4 do Acordo de Paris, entrar em funcionamento. “Isso permitirá que uma empresa estrangeira compre créditos aqui no Brasil para cumprir suas metas no seu país. A gente imagina que isso esteja operacional no final do ano”, afirma. Especialistas avaliam que o Estado terá papel fundamental no setor no horizonte próximo. “A restauração produz ganhos públicos amplos, como redução de carbono, biodiversidade, segurança hídrica e empregos”, diz Thurler. “Mais do que discutir se a atividade já se paga sozinha, a reflexão é como usar recursos públicos e privados de maneira mais estratégica para viabilizá-la.”
Restauração ganha força sob pressão climática
Ritmo atual de recuperação ainda está bem abaixo da meta nacional para 2030















