O ano de 2026 tem sido desafiador para a gestão das águas brasileiras, o que é acompanhado de perto pelos setores que dependem do recurso. Com exceção do Sul, o resto do país está vivendo as consequências do baixo índice de chuvas. Só o Sistema Cantareira, que abastece 46% da região Metropolitana de São Paulo, está com 40,5% de sua capacidade, segundo dados da Sabesp. Trata-se de um volume abaixo do esperado, apesar das chuvas no verão, o que acende um alerta geral diante do período seco que se estende até setembro. Em fevereiro deste ano o Estado transpôs água da bacia do Paraíba do Sul, que abastece especialmente o Estado do Rio de Janeiro, mantendo o mínimo necessário para atender a demanda de 9 milhões de paulistanos e das empresas da região. A SP Águas, agência responsável pela gestão de águas do Estado, diz que apesar do cenário de atenção, não há risco iminente de desabastecimento na região metropolitana. Segundo Camila Viana, diretora-presidente da SP Águas, essa transposição para o Sistema Cantareira acontece desde 2018, conforme previsto na Resolução da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). “Com exceção de 2023, a transposição foi utilizada em todos os períodos em que as condições operacionais demandaram reforço hídrico”, diz. O quadro dá uma medida da realidade que se impôs para o Brasil diante da estabelecida crise climática: a preservação de água já deixou faz tempo de ser assunto de ambientalistas e, cada vez mais, alcança diretamente as empresas e os governos federal e estaduais. Sem água, há risco real de impacto sobre a agricultura, a geração de energia e projetos futuros, como por exemplo, os data centers para suportar a inteligência artificial. Segurança hídrica não é só uma pauta ambiental e social, é uma agenda econômica” “Segurança hídrica não é só uma pauta ambiental e social, é uma agenda econômica”, diz Larissa Oliveira Rêgo, presidente interina da ANA. A autarquia, criada há 26 anos justamente prevendo a necessidade de equilibrar os usos da água no país, é responsável pelo monitoramento em tempo real de todo o fluxo hídrico, e pela articulação entre os 27 Estados e o Distrito Federal. Riscos, como a chegada do El Niño neste ano, também estão no radar da agência, uma vez que o fenômeno pode vir a elevar as chuvas em algumas regiões e colaborar para a estiagem de outras. No Brasil, o principal usuário da água é o setor agrícola, através da irrigação do plantio. Segundo dados da ANA, o consumo de água no agro chega a 50,3% de tudo que é retirado de mananciais. Nelson Ananias, coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), afirma que a cadeia produtiva tem consciência do desafio colocado e que não pode jogar contra a preservação dos recursos hídricos pela sua alta dependência. “O principal patrimônio do produtor rural é o solo e a água. Sem isso não tem irrigação, nem agricultura e nem floresta”, ressalta Ananias. Ele cita os investimentos do setor em tecnologia de irrigação como o principal instrumento de preservação de água dos produtores rurais. “Aumentamos a produtividade na mesma área, e hoje somos capazes de colher três safras em um ano”, diz. A pujança do setor é o principal cartão de visita do agronegócio nacional. O complexo agroindustrial responde por quase um terço do PIB brasileiro, impulsionado fortemente pelas exportações. “Nós alimentamos um bilhão de pessoas no mundo”, completa Ananias, referindo-se ao alcance global da produção de alimentos brasileira. Mas o sucesso econômico do principal consumidor de recursos hídricos do Brasil marca também o paradoxo do século XXI. Se por um lado o agro cresce, por outro, ainda há milhões de pessoas que não são contempladas pelo abastecimento básico. “Ainda há 34 milhões de pessoas no Brasil sem acesso a água e esgoto”, conta Rêgo. A falta do insumo fica mais patente em áreas periféricas e em regiões com menor segurança hídrica, como o Nordeste, que concentra 29% da população brasileira, mas detém apenas 3% da disponibilidade de água do país. Há outro desafio dentro das cidades que envolvem as prefeituras, observa Angelo Lima, atual secretário-geral do Observatório das Águas. “Os municípios entram com revisão de planos diretores para expansão do setor imobiliário avançando para áreas importantes de manutenção de aquíferos e mananciais”, explica.