A análise mais ampla já feita sobre a situação das reservas de água no subsolo brasileiro equivale a um sinal amarelo. Em diversos lugares do país, o uso desse recurso para abastecimento e irrigação já está entrando no "cheque especial" –ou seja, a água retirada não está mais sendo reposta pelas chuvas. Além disso, as mudanças climáticas podem intensificar ainda mais o problema, com o aumento da frequência de secas extremas, por exemplo.

Os dados estão em artigo que saiu nesta quarta-feira (3) no periódico especializado Science Advances. Em alguns casos, principalmente em regiões muito exploradas do Nordeste e do Sudeste, a situação dos aquíferos (grosso modo, reservatórios naturais subterrâneos) lembra a de áreas bem mais áridas do planeta, como o Irã, o norte da Índia e o oeste dos Estados Unidos.

"As águas subterrâneas representam 98% da água armazenada no Brasil", destaca Clyvihk Renna Camacho, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (órgão do governo federal) e coautor do estudo. "Já as águas superficiais representam 2% desse total, e os rios, 0,2%. Ou seja, a porção subterrânea desempenha um papel fundamental no equilíbrio hidrológico do nosso país."

Camacho é um dos coordenadores do trabalho ao lado de Augusto Getirana, cientista do Centro de Voo Espacial Goddard, da Nasa. De fato, uma parte importante da análise vem dos dados de satélite da agência espacial americana, numa missão que investigou variações do campo gravitacional da Terra. Isso é útil para investigar as águas do subsolo porque a concentração do líquido em determinados lugares pode ser detectada gravitacionalmente, graças à sua massa.