O mundo se depara com o desafio de adaptar as cidades para enfrentar o desequilíbrio acelerado do ciclo da água, provocado tanto por longas estiagens quanto por enchentes que inundam ruas e derrubam casas. O diagnóstico da Organização das Nações Unidas (ONU), em seu relatório Estado dos Recursos Hídricos Globais 2024, divulgado no ano passado, retrata um cenário global de destruição causado pelas chuvas frequentes nos últimos anos. No Brasil, o panorama não é diferente. Dados do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional corroboram essa urgência e mostram que, entre 1991 e 2024, os desastres associados às chuvas no país deixaram cerca de 10,5 milhões de pessoas desalojadas ou desabrigadas. Para reverter esse cenário, municípios começam a adotar soluções baseadas na natureza. Uma das principais frentes é a renaturalização de rios urbanos — processo conhecido como daylighting —, que consiste em reabrir e recuperar cursos d’água para elevar a resiliência dos territórios. A estratégia foi, por exemplo, a escolha do Rio de Janeiro. Coordenado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima, um grupo de trabalho estuda a requalificação do Rio Maracanã com foco em Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Alinhada à estratégia nacional sobre o tema (ENSBN), a proposta prevê intervenções que devolvam ao leito parte de suas características originais e ampliem a capacidade de drenagem da região por meio de técnicas sustentáveis. Como parte desse esforço, o município firmou uma parceria em março com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) para lançar um concurso público nacional de projetos arquitetônicos. Embora o edital ainda não tenha data de publicação, a expectativa é que seja lançado ainda neste ano. Campinas (SP) também avança nessa agenda. “É certo que toda infraestrutura deve ser repaginada, para que as cidades se tornem resilientes e capazes de enfrentar as emergências climáticas. As obras públicas devem se adaptar. Precisamos trabalhar para efetivar os projetos e para isso desenvolvemos um orçamento climático”, diz Marcela Pupin, secretária-adjunta da Secretaria Municipal do Clima, Meio Ambiente e Sustentabilidade do município e diretora do Departamento de Mitigação e Adaptação Climática. A linha de frente dos investimentos locais contempla parques lineares e bacias de represamento integradas a ações de reflorestamento. Com um financiamento de R$ 503,7 milhões obtido junto ao BNDES, o plano de macrodrenagem da cidade tem como diferencial agregar Soluções Baseadas na Natureza (SbN) às intervenções de engenharia tradicional. Segundo a bióloga Ângela Guirão, técnica do departamento, a estratégia alia a proteção e o restauro de ecossistemas a benefícios diretos para a população e para a biodiversidade local Paralelamente, o município investe na criação de 25 microflorestas, solução de impacto rápido para a permeabilidade do solo que já utilizou mais de 32 mil mudas — o objetivo é atingir 200 áreas desse tipo. Para combater o déficit de cobertura vegetal, a prefeitura também projetou 49 trechos de parques lineares ao longo de rios assolados por cheias e invasões, visando conter o avanço urbano desordenado e proteger o ecossistema. De acordo com Gabriel Neves, o andamento do plano está avançado: “Hoje temos 35 pequenos trechos desses parques com projetos básicos aprovados e três já estão implantados”. O conceito inovador de “cidade-esponja”, criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, referência em adaptação urbana, foi adotado pela cidade de Niterói (RJ). O projeto, também financiado pelo Fundo Clima, no valor de R$ 104,6 milhões, no fim do ano passado, visa estruturar a drenagem urbana absorvendo e armazenando água das chuvas. De acordo com a prefeitura do município fluminense, o projeto vai replicar na Lagoa de Itaipu o trabalho realizado na Lagoa de Piratininga, com jardins filtrantes, recuperação ambiental, criação de um grande parque de convivência, além de ampliar as ações para Pendotiba, com as florestas de bolso e a renaturalização de rios.
Cidades investem em soluções baseadas na natureza para mitigar impactos de enchentes
Projetos de "cidades-esponja", microflorestas e renaturalização de rios ganham espaço para conter cheias históricas











