Novos sistemas contra cheias são complementares aos já existentes, que falharam há dois anos Equipe de resgaste percorre rua de Porto Alegre durante enchente histórica: em fase de licitação de projeto — Foto: Edilson Dantas /13-12-2024 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 22:24 Rio Grande do Sul enfrenta atrasos em obras de proteção contra cheias Diante da ameaça de um "Super El Niño" e chuvas intensas, o Rio Grande do Sul enfrenta atrasos na implementação de novos sistemas de proteção contra cheias, com apenas 10% das casas prometidas a moradores de áreas de risco entregues. Embora investimentos tenham sido feitos na Defesa Civil, especialistas alertam que o estado não está totalmente preparado para novos desastres, destacando a necessidade de avanço em infraestrutura e habitação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em meio à possibilidade de um “Super El Niño” levar a um regime de chuvas intensas nos próximos meses, o Rio Grande do Sul ainda não iniciou obras dos novos sistemas de proteção contra cheias previstas pelo governo estadual e entregou menos de 10% das novas casas prometidas a moradores de áreas de risco. Diante desse cenário, especialistas temem que, dois anos após enchentes históricas destruírem cidades gaúchas, o estado não esteja preparado para lidar com o fenômeno, que poderá ser o mais intenso em 140 anos, apesar do alto investimento feito até aqui em mecanismos de resposta, como a modernização da Defesa Civil. As obras integram o chamado Plano Rio Grande — programa do governo do estado que promete uma evolução de 36 anos nos sistemas de proteção contra cheias em três anos. Até o momento, dois terços do prazo foram concluídos. Dos R$ 14,2 bilhões orçados para 227 projetos, foram pagos R$ 5,1 bilhões. Os novos sistemas contra cheias são complementares aos já existentes, que falharam há dois anos, e serão custeados por um fundo criado pelo governo federal. As estruturas usam desde diques e canais até soluções tecnológicas de drenagem. Segundo a gestão de Eduardo Leite (PSD), a previsão para conclusão, “em razão da sua complexidade”, é fim de 2031. Uma das cidades mais afetadas pelas chuvas de 2024, Eldorado do Sul teve o anteprojeto do novo sistema atualizado e concluído, com investimento previsto de R$ 1,1 bilhão. Segundo o governo estadual, a próxima etapa é o projeto executivo e o início das obras. Já o de Porto Alegre e Alvorada está na fase final da licitação do anteprojeto — o investimento estimado é de R$ 2,5 bilhões. Os demais, como Bacia do Gravataí (R$ 450 milhões), Bacia do Sinos (R$ 1,9 bilhão), Bacia do Caí (R$ 14,5 milhões), estão em fase de elaboração da documentação técnica. As obras que já começaram são reformas dos sistemas já existentes, em Canoas e Porto Alegre. Na semana passada, a cidade de São Leopoldo foi a primeira a iniciar obras de proteção contra enchentes, ao custo de R$ 69,3 milhões. Essas intervenções, porém, não estão no Plano Rio Grande. Ações pós-enchentes de 2024 — Foto: Arte O Globo Avanço tímido O engenheiro sanitarista e ambiental Vicente Fiametti avalia que a política de adaptação das cidades “pouco avançou”: — O estado está mais preparado em termos de resposta frente a uma possível emergência climática. Tem agora uma estrutura de Defesa Civil à altura do desafio climático que a gente vive hoje. Mas se a gente for pensar em avanço na proteção da população, mudou pouco. O campo da mitigação e adaptação é frágil. As ações também contam com suporte da Universidade do Vale do Taquari (Univates), que apoia municípios no desenvolvimento de sistemas de alarme, e de planos diretores, de conjuntos habitacionais e de contingência, além de auxiliar na qualificação de agentes de saúde e de Defesa Civil. Vice-reitora da Univates, Cintia Agostini explica que os projetos têm responsabilidade compartilhada entre os entes. — Nós avançamos, o estado está melhor preparado, mas não está completamente preparado. Tem município que agora faz concurso público para Defesa Civil, o que antes nem se imaginava — diz Agostini, que lembra que as obras habitacionais dependem da atuação dos municípios na ponta para selecionar áreas e desburocratizar processos. — Nós estamos há dois anos do evento e tem muita gente que não tem a sua casa ainda. O urbanista Eber Pires Marzulo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também vê avanços nos equipamentos da Defesa Civil e em obras de infraestrutura, como drenagem, monitoramento climático e na manutenção do sistema de defesas, casas de bomba e comportas, em Porto Alegre. Mas a cidade ainda está repleta de obras em curso e essa estrutura ainda não está pronta. — A cidade não está preparada para um novo evento de tempestades daquela magnitude — afirma Marzulo. — Sem dúvida foram tomadas algumas medidas nesses últimos dois anos. Houve investimento grande em sistema de dragagem, e de monitoramento, com novas estações para acompanhamento do nível do Guaíba. Mas ainda há muita obra sendo feita, e que deriva, em parte, da falta de manutenção que existia no período anterior. São projetos que tinham que ter sido feitos imediatamente após a tragédia. Política para moradias A habitação segue como o principal problema. Marzulo cita como exemplo o bairro de Sarandi, um dos mais afetados, e cuja população fica em grande parte em área irregular e próxima ao dique, que vazou em 2024. Não houve construção de novas casas no local, e a maioria das famílias não aceitou a proposta de aluguel social para viver em bairros distantes. Por isso, muitos seguem em áreas de risco. Em 2024, a prefeitura de Porto Alegre calculou a necessidade de construção de 20.781 novas casas para quem foi afetado pela elevação das águas do Rio Guaíba. Mas há muitas famílias que não se inscreveram nos programas criados por não conseguirem cumprir requisitos burocráticos, aponta Marzulo. Outras foram morar em morros e áreas de risco. O governo gaúcho estruturou uma estratégia integrada de habitação. A primeira etapa implantou 625 moradias temporárias em dez municípios. Depois, lançou um plano de R$ 647 milhões para construir 2.723 moradias definitivas em 56 municípios. Por enquanto, menos de 10% do total (218 unidades) foram entregues. O estado deu ainda subsídio de R$ 20 mil por família para financiamento habitacional. Já o Ministério das Cidades adotou estratégias de atendimento no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida, uma de médio prazo (construção de novos empreendimentos) e uma de curto prazo (aquisição de imóveis prontos). No estado, o investimento foi de R$ 37,6 bilhões. O MP do estado diz ter intensificado sua atuação em prevenção, preparação e resposta a desastres climáticos, mas reconhece que “ainda existem desafios relevantes”.