Depois da tragédia há dois anos, poder público não responde na velocidade devida com medidas de proteção 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagem da cidade de Porto Alegre (RS) inundada pela enchente de 2024 — Foto: AFP A proteção das populações dos efeitos de eventos climáticos extremos desafia o poder público no mundo todo. No Brasil, o caso do Rio Grande do Sul, atingido por cheia histórica, dá uma demonstração das dificuldades. Mesmo quando governantes tomam decisões corretas na definição de programas de prevenção, a máquina do Estado não responde na velocidade devida. Dois anos depois da enchente que atingiu 478 dos 497 municípios gaúchos, deixando quase 200 mortos, dezenas de desaparecidos e pouco mais de 600 mil desabrigados, o governo não conseguiu dar ampla assistência a todos os atingidos. Boa parte dos que perderam a casa ainda não foi atendida. E talvez nem venha a ser. Há apoio e mobilização. Com repasses do governo federal, foram reservados R$ 37,6 bilhões para novas moradias e contratadas 10.588. Mas apenas 112 foram entregues. O governo estadual destinou R$ 647 milhões à construção de casas, prevendo 2.723 em 56 municípios. Até agora, só 218 já estão com seus proprietários. A Prefeitura de Porto Alegre definiu que era preciso construir 20.781 novas casas para os atingidos pelo transbordamento do Rio Guaíba. A grande maioria, no entanto, não se inscreveu no programa habitacional de emergência por não cumprir requisitos burocráticos, diz o urbanista Eber Pires Marzulo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ora, este não é um programa habitacional qualquer, mas de assistência a famílias que perderam suas casas num cataclismo. A cultura do Estado, contudo, se mostra incapaz de entender isso. O governo estadual parece mais bem preparado para responder a uma emergência climática, por ter reforçado a estrutura da Defesa Civil. “Mas, se a gente for pensar em avanço na proteção da população, mudou pouco. O campo da mitigação e adaptação é frágil”, diz o engenheiro sanitarista e ambiental Vicente Fiametti. São vários os exemplos de lentidão na resposta. Em Eldorado do Sul, uma das cidades mais afetadas, o anteprojeto do novo sistema de proteção contra cheias foi concluído. Ainda falta, porém, o projeto executivo para que as obras comecem e a verba de R$ 1,1 bilhão seja usada. É grande o risco de nova enchente exigir outra atualização do projeto. O anteprojeto para os novos sistemas de Porto Alegre e Alvorada, na Região Metropolitana, ainda está na fase final de licitação. Pelas características da Lagoa dos Patos, com rios desaguando em conexão estreita ao mar, o estado dispõe há muito tempo de sistema de controle de enchentes. Mas é antigo e está desatualizado diante da pressão criada pelas mudanças climáticas. Com acerto, o governo criou o Plano Rio Grande, para, em três anos, modernizar diques, canais e comportas. Dois terços do prazo estipulado já venceram e, dos R$ 14,2 bilhões reservados para 227 projetos, só 36% foram gastos. As únicas obras que começaram são reformas do sistema antigo. A cultura do poder público torna tudo mais lento. O contraste entre essa lentidão na reação e a urgência da nova realidade determinada pelas mudanças no clima não é exclusividade do Rio Grande do Sul.
Lentidão para evitar novas enchentes no Sul traz lições ao resto do país
Depois da tragédia há dois anos, poder público não responde na velocidade devida com medidas de proteção
















