Parques lineares para recuperar margens de rios, jardins filtrantes para melhorar a drenagem urbana, ampliação de ciclovias conectadas ao transporte público, zonas de resiliência climática e projetos de urbanização de periferias começam a alterar o planejamento urbano de algumas cidades brasileiras diante da necessidade de enfrentar enchentes, calor extremo e degradação ambiental. Em diferentes regiões do país, municípios passam a incorporar a adaptação climática à agenda de infraestrutura, mobilidade, habitação e reorganização territorial. O movimento busca tornar os espaços urbanos mais resilientes e menos vulneráveis aos eventos extremos. Fortaleza aparece entre os exemplos por integrar mobilidade sustentável e reorganização urbana, com expansão da rede cicloviária, corredores de ônibus e projetos de integração entre bicicleta e transporte coletivo. Recife, por sua vez, vem sendo observada por experiências ligadas à recuperação ambiental de áreas vulneráveis, incluindo jardins filtrantes para melhoria da drenagem urbana e da qualidade da água, além de iniciativas de infraestrutura verde em regiões suscetíveis a enchentes. Porto Alegre passou a acelerar debates sobre infraestrutura resiliente após as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Entre as propostas em discussão está a criação de Zonas de Resiliência Climática, áreas prioritárias para receber infraestrutura verde, drenagem natural, reflorestamento urbano e ações de redução de riscos. Curitiba e Maringá (PR) também aparecem como referências por iniciativas que buscam integrar mobilidade, arborização e gestão ambiental urbana ao planejamento das cidades. A pressão é crescente. Com mais de 87% da população vivendo em áreas urbanas, segundo o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil enfrenta desafios ligados à infraestrutura, saneamento, mobilidade, moradia e drenagem justamente no momento em que eventos climáticos se tornam frequentes e intensos. Estudos da Deloitte estimam que as perdas globais anuais médias causadas por desastres naturais devem subir de US$ 460 bilhões para mais de US$ 500 bilhões até 2050, com tempestades e inundações concentrando parte relevante dos prejuízos. Para o Brasil, com urbanização intensa em áreas costeiras e grandes bacias hidrográficas, os riscos de enchentes e deslizamentos tendem a crescer. “Tornar as cidades mais preparadas para eventos climáticos extremos deve estar no topo da agenda de políticas públicas. Investir em infraestruturas resilientes, como sistemas de drenagem, obras de contenção, soluções baseadas na natureza e planejamento urbano integrado é fundamental para proteger vidas e bens”, diz Maria Emília Peres, sócia de estratégia de sustentabilidade da Deloitte. Para Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis e da Rede Nossa São Paulo, o principal desafio é transformar o planejamento em execução efetiva e escalonar as melhorias. “As políticas urbanas ainda funcionam de forma fragmentada”, afirma. Para ele, drenagem, mobilidade, habitação, saneamento e saúde pública continuam sendo tratados separadamente pelas prefeituras, apesar de seus impactos conjuntos sobre enchentes, calor extremo e vulnerabilidade social. O avanço dessas iniciativas ocorre em paralelo à mudança na percepção da população sobre os impactos climáticos nas cidades. Pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis, realizada pelo Ipsos-Ipec em dez capitais brasileiras, mostra que enchentes e alagamentos passaram a ser o principal problema ambiental percebido pelos moradores, citados por 39% dos entrevistados, superando, pela primeira vez, a poluição do ar, mencionada por 34%. “Muitas cidades já têm planos de ação climática e iniciativas importantes, mas o modelo de organização urbana continua baseado na mesma lógica de ocupação e crescimento das cidades. Seguimos no binômio asfalto e concreto”, afirma Raquel Rolnik, coordenadora do LabCidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Rolnik avalia positivamente iniciativas como parques lineares, renaturalização de rios e infraestrutura verde, mas ressalta que elas só terão impacto estrutural quando passarem a orientar a drenagem, a mobilidade e a regulação urbanística das cidades como um todo. Chama a atenção, porém, para o risco de que projetos sustentáveis induzam a valorização imobiliária e a expulsão de moradores de baixa renda de áreas requalificadas. Segundo ela, a adaptação climática precisa necessariamente incorporar habitação e justiça urbana.