As cidades brasileiras deixaram de ser apenas o palco onde os efeitos da mudança do clima se manifestam. Tornaram-se o ponto de convergência entre risco e resposta. Conforme o Atlas Brasileiro de Desastres, mais de 64 mil eventos extremos foram registrados no país nas últimas três décadas, atingindo a quase totalidade dos municípios e gerando perdas anuais superiores a 47 bilhões de reais, mais que o dobro da década anterior. Os números revelam, sobretudo, a forma como o território foi ocupado e como as políticas públicas responderam, ou deixaram de responder, a tal dinâmica.
A ciência não foi surpreendida por esse cenário. Ao contrário, antecipou tendências, acumulou evidências e desenvolveu instrumentos capazes de orientar decisões. O descompasso que hoje se observa não decorre da ausência de conhecimento, mas da dificuldade de incorporá-lo, de maneira sistemática, às estruturas de decisão. O intervalo entre o que se sabe e o que se faz tornou-se um dos principais desafios da agenda climática.
No Brasil, esse desafio assume contornos urbanos claros. Mais de 80% dos brasileiros vivem em cidades, e a maior parte dos municípios está exposta a riscos geo-hidrológicos. A mudança do clima, portanto, se apresenta como uma questão ambiental e se expressa como um problema de infraestrutura, de planejamento e, sobretudo, de equidade. Os eventos extremos não distribuem seus efeitos de forma homogênea e sim, tendem a incidir com maior intensidade sobre os territórios mais vulneráveis, ampliando desigualdades preexistentes e tensionando a capacidade de resposta do poder público.











