Após duas décadas ganhando cobertura vegetal urbana, cidade passou quatro anos em curva de queda na medição de satélites O Parque da Fazenda da Juta, no bairro de Sapopemba, inaugurado em janeiro em São Paulo — Foto: Sergio Barzaghi/Secom/SVMA RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 19:28 Expansão urbana ameaça áreas verdes em São Paulo; novos projetos buscam equilíbrio São Paulo enfrenta perda de áreas verdes após uma expansão significativa até 2020. Nos últimos anos, a capital viu sua cobertura vegetal urbana cair para 5.915 hectares. A gestão atual propõe novos parques e projetos como "Vagas Verdes" para transformar estacionamentos em áreas arborizadas. ONGs também contribuem com iniciativas de reflorestamento em escolas, visando equilibrar crescimento urbano e sustentabilidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A falta de áreas verdes é um problema crônico na maior cidade do país. Para piorar, nos últimos cinco anos , os esforços de ampliação da vegetação sofreram um retrocesso. Novos projetos propostos pela prefeitura, pelo poder legislativo e por ONGs, porém, buscam reverter essa perda em São Paulo de maneira criativa. Desde a virada do milênio, a capital paulista vinha ampliando sua área urbana vegetada, de 4.152 para 6.802 hectares até 2020, segundo o projeto MapBiomas de mapeamento por satélite. A partir de então, porém, a cidade tem perdido cobertura verde. Em 2024, o número já tinha caído para 5.915 hectares (um hectare equivale a pouco mais que um campo de futebol). Essa queda ocorreu sobretudo na gestão Ricardo Nunes (MDB), iniciada em 2021. Após ser reeleito, em 2023, o prefeito anunciou medidas para criar áreas arborizadas. Em um folheto distribuído neste mês, a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA) diz ter plantado mais de 400 mil árvores na cidade e implementado 12 bosques urbanos em cinco anos. Entre as ações que a prefeitura mais se esforça em comunicar está a criação de parques, como o da Fazenda da Juta, em Sapopemba, e o Parque do Bixiga, no Centro, que teve projeto aprovado em abril e está em obras. — A coisa mais importante que temos hoje é a implantação de parques — diz a urbanista Tamires Oliveira, chefe de gabinete da SVMA. — Já foram 15 parques criados, e, no domingo agora, a gente vai inaugurar mais um, o Parque da Mooca. Muito do que a prefeitura promoveu no setor foi em 2025, ano ainda não coberto pelos dados municipais do MapBiomas. Para entender por que os satélites veem a área verde de São Paulo diminuir enquanto a prefeitura promove medidas de ampliação, de todo modo, é preciso olhar também para propriedades privadas e para a mudança de cobertura de solo nas áreas públicas que não são parques. — Infelizmente, o que a gente vê na atual gestão é que, em diferentes projetos, a cobertura vegetal não é uma preocupação — diz Rodrigo Iacovini, diretor-executivo do Instituto Pólis, de pesquisa socioambiental urbana. — A gente vê projetos como o do túnel da Avenida Sena Madureira, na Vila Mariana, que estava prevendo desmatar, e o do incinerador de lixo que vai ser construído na expansão de um aterro sanitário em São Mateus, que prevê derrubada de 63 mil árvores. A prefeitura, de todo modo, afirma que quando a contagem é feita em áreas públicas, a cobertura vegetal está melhorando. É difícil ler a tendência nas áreas particulares, que pode ter sido influenciada pelo período de intensa especulação imobiliária e atividade acelerada de incorporadoras e construturas do último quinquênio. Imagem de simulação digital do projeto vencedor para criação do Parque do Bixiga — Foto: SVMA/Democratic Architects Os projetos do túnel e do incinerador, no centro expandido e no extremo da Zona Leste, enfrentam contestações e ainda não saíram do papel, mas encapsulam o problema histórico de equilibrar a demanda por infraestrutura na cidade com seu impacto ambiental. — Em São Mateus, o projeto está em processo de licenciamento, e inclui as medidas compensatórias exigidas para que se autorize a supressão das árvores — diz Oliveira, da SMVA. — A ideia é que não só as compensações fiquem na região de São Mateus e Cidade Tiradentes, que vão ser mais afetadas, mas também a ampliação de equipamentos públicos e outras medidas. No caso do túnel, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) revisou o projeto e diz que deve reduzir a quantidade de árvores derrubadas, prevendo recomposição em outros trechos de via pública na Vila Mariana. Estacionando árvores Em meio ao desafio de aumentar a área verde, a Câmara Municipal introduziu uma ideia que pode ajudar. O projeto batizado de “Vagas Verdes”, concebido por vereadores da oposição e aprovado em abril, prevê a criação de canteiros com árvores em trechos de rua que, hoje, servem como estacionamento público. Da mesma forma com que bares e restaurantes podem se cadastrar para criar “parklets” com mesas e cadeiras, moradores e comerciantes poderão demandar a redesignação dessas vagas para se transformarem em vegetação. A vereadora Renata Falzoni (PSB), uma das autoras da proposta, diz esperar um impacto grande, depois que a lei for sancionada e regulamentada. — Se todas as vagas de estacionamento em vias públicas pudessem ser convertidas em vagas verdes, São Paulo praticamente dobraria sua área verde urbana — diz a parlamentar. — A estimativa é que a cidade possua entre 1,5 e 2 milhões de vagas, ocupando uma área entre 22,5 e 30 km². Oliveira, da SVMA, diz que a ampliação das áreas verdes precisa de soluções diversas e afirma que a prefeitura está buscando plantar em áreas alternativas. Segundo ela, parques como o do Bixiga e da Juta eram demandas históricas. No caso do primeiro, a área pleiteada teve de ser comprada do Grupo Silvio Santos. — O Bixiga ficou anos e anos sem uma conclusão, até esta gestão chegar a um acordo como o grupo — conta a chefe de gabinete. Para criar o parque, foram adquiridos 11 mil metros quadrados por R$ 65 milhões. Segundo a SVMA, esta gestão investiu R$ 489 milhões na compra de áreas que devem ser destinadas a parques, várias na periferia, que são as maiores. O efeito disso na cobertura vegetal da cidade, contudo, ainda depende de algumas dessas áreas serem restauradas, o que leva algum tempo. Escola-floresta Com o poder público não dando conta da demanda de ampliação da área verde da cidade, organizações da sociedade civil tem buscado atuar para compensar essa carência. Um projeto que tem crescido é da ONG Formigas-de-Embaúba, quem tem atuado, sobretudo, em espaços disponíveis encontrados dentro de áreas de escolas públicas da periferia. Numa mistura de projeto de reflorestamento com educação ambiental, técnicos da entidade usam a ajuda de crianças e professores para plantar mudas. Uma das primeiras "miniflorestas" que o grupo criou, sete anos atrás, já formou uma mata densa dentro do Centro Educacional Unificado (CEU) de Campo Limpo, na Zona Sul. Estudantes reunidos na mini-floresta plantada por crianças no CEU Campo Limpo — Foto: Formigas-de-Embaúba/Tuane Rodrigues Até agora, a organização já conseguiu reproduzir a fórmula em outras 52 áreas públicas, a maioria delas escolas, formando mais de 50 pequenos bosques, com tamanhos entre 150 m² e 1.500 m² cada um, ou cerca de 30 mil árvores plantadas. — A gente utiliza uma técnica bem específica de plantio, diferente daquela arborização convencional mais espaçada. Nos espaços que conseguimos a gente planta as mudas mais próximas uma da outra, e com uma diversidade muito grande, de quase 100 espécies de árvores em cada mini-floresta — conta Rafael Ribeiro, cofundador e diretor da ONG. — A ideia é que essa variedade reflita o que era esse nosso bioma nativo aqui de São Paulo, a mata atlântica com transição para o cerrado. Em meio ao mar de prédios no Centro, pouca gente sabe que São Paulo é um município tem mais de 50% de área florestada. Quase toda essa mata, porém, fica nos extremos das zonas Sul e Norte, em unidades de conservação ou em terreno rural (por isso não entra na conta do MapBiomas sobre vegetação urbana). É consenso entre especialistas que o desafio da cidade é fazer com que a sua vegetação não só aumente, mas seja mais bem distribuída no futuro.
São Paulo perde área verde, e novos projetos buscam reverter tendência
Após duas décadas ganhando cobertura vegetal urbana, cidade passou quatro anos em curva de queda na medição de satélites












