Falta uma política nacional para terras-raras, o que nos leva a um resultado irracional: exportar o concentrado mais estratégico do século XXI A mina de Serra Verde, em Minaçu, Goiás — Foto: Divulgação/Serra Verde RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/05/2026 - 15:52 Brasil Perde Oportunidade com Exportação Bruta de Terras-Raras O caso Serra Verde evidencia a ausência de uma política nacional robusta para terras-raras no Brasil, resultando na exportação do material bruto, um recurso estratégico crucial no século XXI. Isso destaca a necessidade urgente de desenvolver políticas que valorizem a cadeia produtiva interna, evitando a exportação de concentrados e promovendo o desenvolvimento tecnológico e econômico local. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Há um pequeno conjunto de elementos químicos que decide, silenciosamente, o século XXI. São os lantanídeos e alguns vizinhos da tabela periódica — escândio, ítrio — que o mundo convencionou chamar de terras-raras. Eles estão no motor elétrico, no catalisador da refinaria, na fosforescência dos displays, no guiamento de mísseis, na turbina eólica, no laser de fibra óptica e nos sensores médicos. Sem eles, a transição energética não acontece, a indústria de semicondutores trava, e a defesa nacional se fragiliza. Hoje, a China refina 90% das terras-raras do planeta e domina a cadeia global dos ímãs de alta performance. O restante do mundo, inclusive os países mais ricos, está totalmente dependente. O Brasil é um dos países mais privilegiados geologicamente nesse contexto, com uma das maiores reservas de terras-raras do mundo, num cinturão no interior (Araxá, Catalão, Tapira, Salitre), no centro do país e na cobiçada região conhecida como Cabeça do Cachorro, na Amazônia. Em 2024, entrou em operação a mina de Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás, primeira produção comercial de terras-raras a partir de argilas de adsorção iônica fora da Ásia, com boas práticas ambientais, eletricidade renovável e previsão de 6.500 toneladas anuais até 2027. Mas o caso exige atenção. A mina não produz óxidos separados, metais ou ímãs. O que sai de Minaçu é um concentrado, sem a etapa decisiva: a separação dos elementos. Exportar concentrado é repetir o erro histórico cometido com ferro e bauxita. Em abril de 2026, a USA Rare Earth anunciou a compra de 100% do Serra Verde Group por US$ 2,8 bilhões. Na prática, a única operação no Brasil, antes mesmo de ancorar uma cadeia própria, está prestes a se tornar fornecedora para instalações de separação e fábricas nos EUA. É importante reconhecer: não há nada de condenável na atuação da Serra Verde. A falha não é da empresa; é do país. Falta uma política nacional para terras-raras, e isso nos leva a um resultado irracional: exportar o concentrado mais estratégico do século XXI. Trata-se de um ciclo brasileiro recorrente: geologia identificada no Brasil, capital e tecnologia de separação no exterior, valor agregado em Wall Street, Washington e laboratórios estrangeiros. O Brasil reúne competências, com geólogos, químicos especializados em separação, engenheiros metalúrgicos e infraestrutura científica rara no Sul Global — como o Sirius, no CNPEM, capaz de caracterizar minerais e produtos de separação em nível avançado. O que falta é articulação. O tema entrou na agenda do Estado em 2026, com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, em tramitação no Senado. O Executivo discute verticalização e governança da cadeia. É o momento para a comunidade científica propor metas, cronogramas e marcos auditáveis. À Academia Brasileira de Ciências e às sociedades de Física, Química, Geologia e Metalurgia cabe construir um plano técnico com clareza e objetividade para o Congresso e o Executivo. É incondicional prever a proteção dos territórios indígenas e da biodiversidade, especialmente na Amazônia. Em mercados cada vez mais sensíveis a critérios ambientais e sociais, isso é um diferencial competitivo. O Brasil tem a geologia. Tem a ciência. Tem as instituições. Mas cada ano sem política nacional para o setor significa mais um ativo geológico abastecendo uma cadeia de valor fora do país, mais uma oportunidade perdida. A maturidade política para organizar o que já temos precisa vir agora, não depois do ciclo eleitoral ou da próxima crise energética. Agora. *Adalberto Fazzio é diretor da Ilum Escola de Ciência/CNPEM, professor titular da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências