Para a Faria Lima, os efeitos a curto prazo mais diretos sobre a classificação das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos estão mais nos reflexos políticos, e não na saída de recursos do Brasil ou em restrições a investimentos no país. Na prática, agentes financeiros estão lidando com o episódio como um ruído, e não como um “game changer”. “Está todo mundo de olho no Polymarket”, revela o estrategista de uma importante gestora de recursos. “Temos de ver se isso poderá ajudar — ou atrapalhar — a campanha do Flávio Bolsonaro. Acho que esse é o principal efeito no momento da ótica macro”, afirma o profissional. Ele avalia que o pré-candidato do PL pode ser ajudado em um primeiro momento, “mas não acho que isso é algo perene nem que a intensidade deva ser determinante, já que há muitos capítulos à frente nesta eleição”. E, ao menos neste primeiro momento, praticamente não houve alterações nas apostas sobre os resultados da eleição presidencial de outubro. Há pouco, no Polymarket, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia com 41% de chance de vitória contra 28,6% de Flávio Bolsonaro, exatamente os mesmos percentuais observados na tarde de ontem, antes da decisão do Departamento de Estado americano vir à tona. Nos preços dos ativos, o impacto direto da medida parece ter sido nulo. Ou, no máximo, ligeiramente negativo. Em conversas com tesoureiros, gestores de recursos, estrategistas e economistas de grandes casas no mercado em condição de anonimato, a maioria não vê grandes reflexos da ação americana contra CV e PCC tendo impacto relevante nos ativos domésticos na sessão. Apesar do “price action” negativo, com queda do Ibovespa, alta do dólar frente ao real e aumento dos prêmios nos juros futuros em relação aos ajustes, o mercado observa que há fatores técnicos importantes que ajudam a influenciar a percepção dos agentes no dia, como a queda dos preços do petróleo no exterior — e o consequente desmonte do “trade” que beneficiou o real desde março —, a formação da Ptax de fim de mês e os efeitos do forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre nas apostas do mercado de juros. No caso do câmbio em particular, que poderia ser afetado por uma eventual saída de recursos do país ou desmonte forçado de posições, traders veem pouco efeito da ação dos EUA. “Ainda é ruído. Se algo concreto se desenhar, acho que pode vir a fazer preço, mas, por ora, não”, diz um gestor na condição de anonimato. O profissional, inclusive, ressalta o aspecto eleitoral da ação americana. “Se, de alguma forma, alterar a corrida eleitoral pode ser, sim, algo a mexer com o mercado.” Outro operador lembra que o real tem apresentado um desempenho um pouco mais fraco que o dos pares desde a divulgação do áudio que ligou Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. “Acho, na verdade, que o investidor está começando a ficar incomodado com a proximidade das eleições. E a guerra no Oriente Médio possivelmente terminando é algo ruim para o real no relativo, já que os preços do petróleo vinham fornecendo suporte à divisa.” Apesar da desvalorização maior do real em relação aos pares nesta manhã, há na sessão a formação da Ptax de fim de mês que acaba acentuando movimentos do câmbio. A Ptax formada hoje pelo Banco Central deverá ser utilizada como referência nos contratos futuros que vencem em junho, portanto, cria-se uma disputa entre comprados e vendidos em dólar pelo nível da cotação.