O anúncio dos EUA classificando o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abre um capítulo perigoso na relação bilateral com o Brasil e representa uma interferência nas eleições presidenciais deste ano, segundo o mestre em Relações Internacionais Feliciano de Sá Guimarães, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Conforme explica Guimarães, o efeito prático da medida é que, a partir de agora, os EUA poderão impor sanções financeiras a empresas brasileiras e estrangeiras que sejam acusadas de manter algum tipo de relação com os dois grupos criminosos que dominam territórios no Brasil. Ações militares ou operações de polícias americanas dentro do Brasil são improváveis. Contudo, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se manifestou várias vezes contrário a essa iniciativa por parte dos EUA, o tema coloca as relações entre os dois países em um novo momento. “Estão abrindo um capítulo perigoso da relação bilateral”, comenta Guimarães. “Coloca o presidente Lula em uma posição delicada porque haverá apoio de uma parcela importante da população”, acrescenta. Na avaliação do especialista do Cebri, é improvável que a família Bolsonaro tenha tido influência direta na decisão anunciada pelos EUA nesta quinta-feira (28). Mas é provável que o grupo representado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na corrida presidencial, tenham recebido a informação de que isso estava prestes a acontecer e aproveitaram o momento para organizar a visita do senador ao presidente americano, Donald Trump, nesta semana. Para Guimarães, o governo brasileiro estava preparado para a iminência deste anúncio dos EUA, mas o Itamaraty tem poucos meios para rebater. A reação, segundo ele, deve vir diretamente do Palácio do Planalto por meio de alguma contraproposta de segurança pública que combata o poder do PCC e do Comando Vermelho, e não em medida retaliatória aos EUA. Além disso, o anúncio americano mostra que a influência ideológica do movimento MAGA (Make America Great Again) afetou mais o presidente Trump desta vez do que a ala mais moderada do governo americano. Reedição geopolitizada da Guerra às Drogas Guimarães analisa a iniciativa dos EUA de expandir a classificação de terrorista a grupos narcotraficantes da América Latina como uma “reedição geopolitizada” da Guerra às Drogas, política adotada pelos EUA nas décadas de 1980 e 1990 para inibir o fluxo de drogas em direção ao país norte-americano. Nas décadas de 1980 e 1990, forças de inteligência e de combate às drogas dos EUA agiam diretamente sobre polícias locais na América Latina para atacar grupos narcotraficantes, mas a estratégia fracassou em conter o fluxo de drogas para o país. “A Guerra às Drogas, apesar de intervenções em territórios fora dos EUA, tinha um aspecto mais doméstico com o objetivo de reduzir a entrada de drogas nos EUA. Esta nova versão agora é a continuação disso, mas com a questão geopolítica como elemento adicional”, comenta Guimarães, em referência ao que tem sido chamado de “corolário Trump”, estratégia de retomar o controle geopolítico da América Latina num momento em que os EUA enfrentam a expansão da influência da China como adversário geopolítico. Palácio Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores (MRE), Brasília (DF) — Foto: Dammer Martins/MRE
Decisão dos EUA sobre facções abre capitulo perigoso na relação bilateral, diz Cebri
Segundo Feliciano de Sá Guimarães, do Cebri, o efeito prático da medida é que os EUA poderão impor sanções financeiras a empresas brasileiras e estrangeiras acusadas de manter relação com os grupos criminosos












