A decisão do governo dos Estados Unidos de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas tem um "impacto relevante" sobre a forma como o Brasil é visto em Washington. "Toda a conversa sobre contraterrorismo em Washington é uma conversa que tem uma série de implicações, porque permite que o governo americano lance mão de dispositivos judiciais, financeiros e militares diferentes do que no combate ao crime transnacional comum. Tem muito mais recursos disponíveis, envolvimento do Pentágono e da CIA, que não costumam se envolver de forma tão direta sem essa designação", afirmou Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, professor sênior no Carnegie Endowment em Washington e pesquisador visitante na Harvard Kennedy School. Para ele, apesar de, nas redes sociais, o debate sobre a decisão do governo americano acontecer no nível da polarização política nacional, as principais consequências passam longe do debate eleitoral. "Isso traz uma série de desafios para bancos brasileiros. Inclusive pode atrapalhar o Brasil como destino de investimentos por parte de outros países porque os investimentos no Brasil podem ser questionados por possíveis laços com o PCC, que, vale lembrar, atua em muitas frentes da economia lícita brasileira", pondera Stuenkel. "Tapa na cara do governo" No front político interno brasileiro, o professor afirma que a decisão do governo americano é "um tapa na cara do governo", não pela designação em si, mas pela forma como foi anunciado. "É um desafio para a relação bilateral e no curto prazo um ponto positivo para a campanha de Flávio Bolsonaro. A curto prazo representa uma cilada para o governo Lula. É difícil criticar essa decisão sem ser taxado de defensor de bandido", argumenta o especialista, para quem o debate sobre a questão é "muito polarizado" e muitas pessoas não entendem realmente o que a designação implica. "Isso vai ser um desafio de comunicação para o governo brasileiro, de que forma eles resolvem ou tentam reagir sem que pareça uma defesa do crime organizado." Para o professor Oliver Stuenkel, a decisão dos EUA sobre PCC e CV foi um "tapa na cara do governo Lula" — Foto: Silvia Zamboni/Valor