O mercado financeiro e produtivo brasileiro pode ser impactado pela decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A classificação entrará em vigor em 5 de junho, de acordo com o comunicado do Departamento de Estado americano. Em tese, a designação abre brecha para que agentes dos EUA, sejam membros das Forças Armadas ou de órgãos de Inteligência como a CIA, possam atuar no Brasil sob o pretexto de combater diretamente as quadrilhas agora tidas como terroristas. Além disso, a medida prevê sanções, inclusive econômicas, a empresas e indivíduos que, mesmo inadvertidamente, possam ser relacionados às facções. Especialista em Relações Internacionais e pesquisador da Universidade estadual do Rio (Uerj), frisa que os primeiros efeitos da decisão dos EUA podem ser sentidos em especial na seara econômica: — As empresas brasileiras podem ser taxadas de financiadoras do terrorismo e ficarem restritas no mercado internacional. Por fim, em última instância, podem usar desse status para declarar uma invasão em nome do combate ao terrorismo — avalia o especialista. O que diz a lei americana De acordo com a lei dos EUA, qualquer pessoa ou empresa americana ou que atue no país que fizer negócios, enviar ou receber dinheiro ou serviços de grupos terroristas pode ser penalizada criminalmente. Indiretamente, isso vale para qualquer empresa, entidade, fundos, indústria ou pessoa que tenha conexões com essas facções criminosas, agora consideradas terroristas. Isso poderia, em tese, fazer com que empresas americanas tenham receio de fazer negócios com determinados setores por temor de que haja envolvimento com organizações criminosas. Investigações recentes da Polícia Federal, da Receita e do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) mostraram a infiltração do PCC em diversos setores da economia, de combustíveis a fintechs, de fundos de investimento imobiliários até a indústria petroquímica. 'Receio de efeitos colaterais sobre bancos e empresas' Para fontes do mercado financeiro e de fundos de investimento ouvidas pelo GLOBO, não é provável uma fuga imediata de investimentos estrangeiros no Brasil, mas pode haver um aumento do “escrutínio regulatório” e maior rigidez nas regras de compliance devido a maior risco jurídico. — Na prática, o que a medida faz é elevar a régua de risco para bancos, meios de pagamento, fintechs, seguradoras, empresas com relacionamento com o sistema financeiro em dólar e grupos que atuem em setores mais vulneráveis à infiltração do crime organizado. Inclusive, já era conhecido o posicionamento do governo brasileiro resistir a essa classificação justamente pelo receio de efeitos colaterais sobre bancos e empresas que acabassem, ainda que indiretamente, operando com pessoas ou estruturas ligadas a essas facções — opina Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Efeitos no valor do dólar Esse aumento do risco regulatório nessas operações poderia trazer efeitos no câmbio, aumentando o valor do dólar. Como trata-se de uma lei ampla, pode ter efeito em empresas e indivíduos que tenham alguma relação com o sistema financeiro americano, ainda que não sejam cidadãos ou pessoas jurídicas baseadas dos Estados Unidos, levando a uma possível penalização de qualquer negócio por pagamentos feitos a empresas brasileiras que, sem o conhecimento prévio, esteja ligadas ao CV ou ao PCC. Qualquer tipo de “apoio material” ou “serviço” também pode ser penalizado. Hoje, o PCC está presente atualmente em 28 países de quatro continentes, de acordo com o MP-SP, tem mais de 40 mil membros, sendo cerca de 2 mil fora do país, e apesar de 80% da receita do grupo vem do tráfico internacional, há infiltração em diversos mercados legais, como revelaram operações recentes como a Carbono Oculto, deflagrada em 2025. Felipe Sant'Anna, especialista de investimentos da Axia Investing, afirma a decisão do governo americano pode “abrir brechas para impedir negócios de empresas brasileiras no país”. Outro efeito seria a cobrança de regras mais rígidas de compliance e de investigações que antecedem qualquer negócio: — Algumas das nossas gigantes, frigoríficos, bancos, fintechs, se eventualmente aparecem em alguma operação ligada ao crime organizado, principalmente o PCC, que tem uma operação criminosa mais “sofisticada”, poderiam ter seus bens bloqueados e seus negócios cortados. E as empresas americanas podem ser mais cobradas pelo governo americano, no sentido de que se elas negociarem com alguém no Brasil que tenha algum vínculo com o a organização criminosa, essas empresas seriam consideradas cúmplices. Então elas podem vir a tirar dinheiro do país por cautela — opina. Em sua avaliação, é possível que esse efeito de retirada de recursos seja sentido de maneira mais imediata. — Se eu fosse gestor de um fundo ou de uma empresa americana, eu de forma antecipada retiraria meu capital. Existe esse temor de perda de recursos, sempre há. A gente aperta o cerco, cria mais restrições, mas o custo de prevenir, da cautela, é menor do que o custo de eventualmente ter alguma penalização depois — acrescenta. O que diz o MP-SP Fontes MP-SP ouvidas pelo GLOBO também avaliam reflexos no setor econômico, principalmente após as operações recentes que trouxeram à tona a atuação das facções criminosas na Faria Lima e no setor produtivo no geral. Nesta quinta, a Operação Fluxo Oculto, um desdobramento da Carbono Oculto, atingiu seis fintechs envolvidas em um esquema de lavagem de dinheiro oriundo do crime organizado. — Tem reflexos reputacionais que são inegáveis. Tem que ver o quanto vai afetar a agenda econômica e comercial, por conta de reputação. A questão reputacional pode trazer embaraço para a agenda comercial. (A decisão) traz incutida uma questão de medo no ambiente de negócios. Você pega o que se transformou o sistema financeiro, com toda hora essas coisas (a presença do PCC) sendo reveladas, deixa todo mundo (pensando) ‘onde eu estou? com quem estou fazendo negócio?’. Acho que tende a ter um impacto muito grande do comportamento das financeiras, que vão ficar super preocupadas, porque a sanção passa a ser muito maior, na hipótese de se detectar alguma coisa, principalmente aquelas (empresas) dos EUA que operam aqui — afirma uma fonte do MP-SP. (Colaboraram Paulo Assad e Kaio Magalhães)