Há dias, cruzei-me com uma frase de George Steiner que me ficou na retina: “A política tornou-se o refúgio dos medíocres.” Foi dita em 2011, mas descreve de forma exímia o que hoje vejo.Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que a política não era um ponto de partida, mas um ponto de chegada. Não se entrava para ser alguém. Entrava-se porque já se era alguém. Empresários de distinção, profissionais de sucesso e académicos de prestígio suspendiam as suas carreiras para servir a causa pública por um período limitado. Era um dever, uma obrigação moral. Era devolver à sociedade o que ela lhes tinha permitido alcançar. E, terminado esse ciclo, regressavam à sua vida, à sua profissão, à magnificência que construíram.Hoje, essa lógica foi completamente invertida. A vida política deixou de ser um espaço de exigência para se tornar o asilo confortável de quem não conseguiu afirmar-se onde o mérito ainda é inegociável. No mundo empresarial, quem não cria valor desaparece. Na academia, quem não produz conhecimento é ultrapassado. Há exigência, escrutínio, consequências. Já na política, essas regras parecem suspensas. Não só a mediocridade sobrevive, como se adapta e prospera.O percurso de um político da actualidade tornou-se um padrão previsível: falha-se onde é preciso competir a sério, onde os resultados são mensuráveis e a excelência não se pode disfarçar com fatos caros e sorrisos polidos, e encontra-se na esfera política um espaço em que o discurso substitui a obra e a retórica encobre a ausência de substância. Este meio deixou de seleccionar os melhores para seleccionar os mais disponíveis: os que alinham em tudo, os que estão sempre presentes, os que percebem que pensar demasiado e expressar opiniões genuínas pode ser um obstáculo à progressão.Aqueles que florescem são os que mais se curvam perante quem está no poder, desenvolvendo uma escoliose grave que milagrosamente se cura quando chega a altura de subir na hierarquia e é preciso espetar a faca nas costas de quem lhes deu a mão.Neste ecossistema, o protagonismo tornou-se fácil e barato. Não se exige qualquer tipo de percurso prévio de valor. A visibilidade passou a ser um fim em si mesmo. E é aqui que muitos encontram aquilo que nunca conseguiram fora: reconhecimento sem provas dadas, palco sem exigência, influência sem capacidade.