Desde a eleição de 2018, quando a ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro tomou o Brasil de assalto, fala-se de como a esfera pública e o debate político se bifurcaram em “bolhas digitais” separadas, em que não apenas visões e opiniões são disputadas, mas também os fatos e, portanto, a própria realidade. A bolha era sobretudo algorítmica, mas seu efeito se estendia para a própria mente dos usuários: embora olhassem para o “mesmo” fato, viam realidades diametralmente opostas.

Desde então, sob a égide da economia da atenção, o debate político se desvirtuou em “guerras de narrativas”, em que táticas bélicas passaram a ser aplicadas à comunicação em massa nas velhas e novas mídias. Uma dessas táticas é a cortina de fumaça, que, no contexto da guerra analógica, envolvia dispersar substâncias químicas para produzir uma névoa que ocultasse as movimentações das tropas. Na guerra digital, passou a significar conteúdos que confundem ou desviam a atenção, lançados por uma “bolha” contra a outra.

Hoje, contudo, as bolhas e cortinas de fumaça parecem ter evoluído para uma névoa mental perene, que embaça nossa visão com relação à política. Num artigo escrito logo após as turbulentas eleições de 2022, sugeri que a política no Brasil parecia estar se bifurcando em duas camadas: uma midiática e “populista”, ancorada na lógica da economia da atenção digital; e outra, menos visível para o público em geral, em que a realpolitik das negociações, trocas e traições seguia operando nos bastidores. A política dos projetos e propostas ficaria, em ambos os casos, em segundo plano.