No século XXI, líderes populistas, movimentos iliberais e redes extremistas aprenderam algo essencial: o poder já não depende exclusivamente do Estado. Ele depende da capacidade de construir uma infraestrutura paralela, financeira, cultural, jurídica, digital e transnacional.

É sob esta lente que deve ser analisado o recente conjunto de revelações envolvendo Eduardo Bolsonaro, o filme Dark Horse, contratos tornados públicos pelo Intercept Brasil, estruturas societárias nos Estados Unidos e a crescente reorganização do bolsonarismo fora do território político brasileiro.

O caso talvez não seja, em essência, sobre um filme. O filme é apenas a superfície visível.

Segundo reportagem recente do Intercept, depois de indicar os contatos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, mais recentemente, contratos relacionados à produção de Dark Horse indicariam um papel mais substantivo de Eduardo Bolsonaro do que o previamente apresentado publicamente, incluindo atribuições de produtor-executivo e influência sobre decisões financeiras do projeto. Politicamente, o episódio sugere a existência de uma engrenagem de sustentação internacional do bolsonarismo.

Nos últimos anos, a literatura contemporânea sobre corrupção transnacional, lavagem de dinheiro e novas arquiteturas globais de influência política passou a demonstrar algo profundamente desconfortável: democracias podem ser fragilizadas por redes privadas de dinheiro e opacidade que atravessam fronteiras jurídicas.