Ministro do STF abraça tese que vinha sendo estudada pela própria defesa de Vorcaro para tentar anular a apuração 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes na chegada à sessão plenária do STF nesta tarde (03/09/26) — Foto: Brenno Carvalho A ofensiva de Alexandre de Moraes sobre o ministro André Mendonça apontando "fortes indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade" na condução do caso Master não é apenas um revide contra o colega na tentativa de matar no peito a possibilidade de uma investigação contra si próprio. Na prática, a iniciativa de Moraes abre caminho para implodir toda a apuração da maior fraude bancária da história do país. Ao dizer que houve direcionamento das investigações e “quebra na cadeia de custódia”, Moraes abraça uma tese que vinha sendo estudada pela própria defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para tentar anular a apuração. Diante do fracasso das duas tentativas de negociação de um acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal (PF) e com a Procuradoria-Geral da República (PGR), os advogados do dono do Banco Master buscavam encontrar formas de anular a investigação. A decisão de vinte páginas de Moraes aponta o rumo. "Alexandre de Moraes, no fundo, quer é anular tudo. Custe o que custar", disse ao blog uma fonte que acompanha de perto as investigações. Para um interlocutor de Moraes, o ministro decidiu "dobrar a aposta". Assim, Moraes tenta salvar políticos de diferentes matizes políticos, em especial o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), o ex-líder do governo Lula no Senado Jaques Wagner (PT-BA), e integrantes da cúpula do Judiciário – e até mesmo o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, arrastado para o epicentro do escândalo após virem à tona as mensagens cobrando dinheiro de Vorcaro para financiar "Dark Horse". Moraes tomou a decisão no âmbito do controverso inquérito das fake news, criado em 2019 por Dias Toffoli para apurar ameaças, ofensas e notícias falsas contra integrantes da Corte e seus familiares. Na prática, Moraes usou um instrumento de proteção da Corte contra um colega da própria Corte. De acordo com Moraes, Mendonça não apenas teria adotado medidas que "afastaram a observância da cadeia de custódia", como também promoveu uma "condução irregular das tratativas" de delações premiadas e "direcionamento de determinados alvos para investigação por motivos pessoais e políticos". 'Assimetria de tratamento' Segundo um relatório apócrifo da PF mencionado por Moraes, houve um "avanço progressivo" de André Mendonça "sobre atribuições próprias da Polícia Federal" e "assimetria de tratamento entre investigados de situação processual equivalente". Entre os indícios de crime apontados por Moraes estão "usurpação da direção das investigações das autoridades policiais, inclusive com determinação de medidas administrativas que afastaram a observância da cadeia de custódia prejudicando a produção probatória", a condução irregular das "tratativas de eventual colaboração premiada" e o direcionamento de determinados alvos para investigação (ministro Alexandre de Moraes e Senador Davi Alcolumbre), "por motivos pessoais e políticos, inclusive com a indicação prévia de medidas cautelares a serem apresentadas pela Polícia Federal". De acordo com Alexandre de Moraes, Mendonça "manifestou sua vontade em afastar do exercício de suas funções, tanto o Diretor-Geral da Polícia Federal (ameaçando-o de afastamento cautelar das funções), quanto o Procurador-Geral da República (ameaçando transformar o titular da ação penal em testemunha, uma vez que “a proximidade com o ministro Gilmar Mendes o tornaria indigno de confiança”). Enquanto Mendonça desconfia do vazamento de operações sigilosas, se queixa das tentativas de intromissão do governo Lula nas investigações e da demora no envio de relatórios, a PF vê uma tentativa do ministro de intervir e direcionar politicamente as apurações. "O Relatório de Inteligência aponta que, em relação ao Ministro Alexandre de Moraes, o relator, Ministro André Mendonça expressamente 'denota interesse no início de investigação formal' e solicitou 'mais de uma vez que a equipe de investigação encaminhasse alguma provocação a ele nesse sentido", diz a decisão de Moraes. Ao contrário do que Vorcaro disse para a PF ("Achava que tinha construído um sistema para me proteger, e tudo se virou contra mim"), o sistema se uniu – e no desespero de salvar a si próprio, vai tentar salvá-lo também.