Fenômeno pode limitar produção hidrelétrica no Norte e no Nordeste e favorecer redução dos cortes das fontes limpas eólica e solar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Com menos chuvas previstas, energia gerada pelo vento vai salvar o sistema, avalia Elbia Gannoum, da Abeeólica — Foto: Flavia Valsani/Divulgação Com quase 90% da matriz elétrica baseados em fontes renováveis, o Brasil tem uma condição privilegiada na geração de energia, mas isso também exige alta capacidade de lidar com variações no clima. A ocorrência do El Niño neste ano impõe um desafio adicional ao setor elétrico brasileiro, mas pode até favorecer o melhor aproveitamento das fontes eólica e solar, minimizando impactos e custos. O El Niño consiste no aquecimento das águas do oceano Pacífico e é associado a alterações climáticas em todo o planeta. Há 69% de chance de ser, neste ano, o mais intenso desde 1950, de acordo com o Centro de Previsão Climática da Agência Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA) dos Estados Unidos. O fenômeno traz atenção para os reservatórios das hidrelétricas, a principal fonte do Sistema Interligado Nacional (SIN), e para o aumento de demanda com mais aparelhos de ar-condicionado ligados, por exemplo. Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), o Subsistema Sudeste/Centro-Oeste está com 61,16% de sua capacidade de armazenamento, e o Sul, 84,38%. O Nordeste e o Norte estão em 80,80% e 86,81%, respectivamente. No Brasil, as alterações esperadas são chuvas acima da média no Sul e abaixo no Norte e no Nordeste a partir de outubro, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O ONS ressaltou, em julho, a situação do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, no qual o cenário mais desfavorável é de chuva abaixo da média, com impacto nos lagos de hidrelétricas na primavera, mas com efeitos limitados no período chuvoso, de dezembro a março. A maior variação esperada é no volume de precipitação no Sul, no Norte e no Nordeste. Porém, especialistas apontam que o cenário pode dar espaço a fontes como solar e eólica, cuja geração tem sido limitada - o “curtailment”, corte na geração imposto pelo ONS por causa de excesso de energia no sistema - devido a um descasamento com os horários de maior consumo de energia, sem que o país abra mão da segurança das termelétricas. “Há expectativa de predomínio de céu claro e intensificação dos ventos no Nordeste, favorecendo a geração solar fotovoltaica e eólica”, afirma o ONS. “Vamos ter uma oferta menor de água, e aí vamos utilizar os recursos eólicos para normalmente salvar o sistema”, diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Segundo ela, essa geração deve continuar o dia inteiro, inclusive nos horários de pico. “Às 18h, por exemplo, é justamente quando o vento é mais forte em algumas regiões do país. Então acho que isso pode ajudar muito a diminuir a dependência de termelétricas”, afirma. O Nordeste concentra cerca da capacidade de geração de energia eólica do país. Fenômeno pode limitar produção hidrelétrica e reduzir cortes das fontes limpas eólica e solar Para a geração solar é diferente. O aumento de chuvas esperado no Sul Brasil pode reduzir a radiação e impactar a geração de usinas e placas da geração distribuída, instaladas em telhados na região. Mas, para a presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), Bárbara Rubim, esse efeito deve ser limitado e o setor terá, ainda assim, uma importante contribuição neste ano. A entidade estima que a geração solar diminuiu em cerca de R$ 13 bilhões o custo da conta de luz na crise hídrica de 2021. “A solar tem ajudado não só a compensar eventual baixa dos reservatórios, mas também a poupá-los nos períodos de maior geração. Sem dúvida, ela poderá ajudar a compensar uma geração hídrica mais baixa, como já tem feito” diz. José Marangon, professor da Universidade Federal de Itajubá (MG) que estuda os efeitos das mudanças climáticas sobre a geração de energia, concorda que as mudanças impostas pelo El Niño devem beneficiar parques solares e eólicos. “Se a temperatura sobe, a demanda por ar-condicionado cresce. Mas a geração solar ajuda a aliviar esse estresse, sobretudo por ocorrer durante o dia, quando esse consumo é maior. A eólica complementa essa geração, especialmente à noite, e o armazenamento [de energia] por baterias pode ajudar a equilibrar as oscilações das fontes renováveis”, afirma. Apesar da expectativa, o avanço é limitado. A estabilidade das termelétricas ainda é o principal seguro do ONS para garantir energia nos horários de pico, do fim da tarde ao início da noite, dada a intermitência das fontes solar e eólica. A principal preocupação de especialistas é com os reservatórios, que podem sofrer com falta de chuvas, deixando o sistema numa situação mais difícil no início de 2027. “Termelétricas devem seguir como o principal reforço nos horários de ponta, com oferta já garantida pelo leilão realizado neste ano”, explica o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro. O Ministério de Minas e Energia (MME) cita esse certame de reserva de capacidade, realizado em março, como uma das principais medidas para reforçar a segurança do sistema elétrico diante do El Niño. Foram contratados 501 MW de potência, sendo 80% de usinas a óleo combustível e diesel, com entrada em operação já em 2026 e 2027 e contratos de três anos, e 20% de usinas a biodiesel, para dez anos. “No monitoramento dos riscos ao setor elétrico decorrentes do El Niño, em caso de necessidade, poderá haver despacho térmico adicional, inclusive em razão da possibilidade de ondas de calor”, informa a pasta, referindo-se ao consumo que costuma acompanhar altas temperaturas. No fim de julho, o governo antecipou para setembro a entrada em operação de cinco termelétricas previstas para 2027 e 2028. Isso agrega 1,8 GW de potência ao SIN, e reforça a segurança do suprimento diante da possível ocorrência do El Niño, segundo o ONS.