Apesar de as renováveis produzirem mais, e a demanda pode crescer pelo calor, os cortes de geração do ONS podem continuar sendo uma manobra necessária 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Parque de energia solar da Engie no RN: empresa está mais rigorosa na avaliação de novos projetos no país — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 21:26 El Niño Impulsiona Renováveis no Brasil, Mas Desperdício Persiste O fenômeno El Niño está impulsionando a geração de energia solar e eólica no Brasil, mas não resolve o desperdício no setor elétrico. Apesar do aumento da produção renovável e da demanda potencial pelo calor, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ainda precisa realizar cortes de geração. A disparidade entre a oferta e a absorção pelo sistema, aliada à falta de expansão em transmissão e armazenamento, resulta em energia descartada e acionamento de termelétricas. A Abradee sugere reestruturação do setor e fim de subsídios que afetam os consumidores. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No setor elétrico, o debate em torno do El Niño costuma se concentrar nos reservatórios das hidrelétricas. Há, porém, uma segunda camada do problema que merece atenção: o que o fenômeno faz — e deixa de fazer— com a geração de energia solar e eólica, e por que isso pouco altera a dinâmica dos cortes de geração (o chamado curtailment) já enfrentados pelo sistema. Contra o que o senso comum poderia sugerir, o El Niño tende a beneficiar, e não a reduzir, a produção de fontes renováveis intermitentes. Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da consultoria especializada Nottus, explica que a concentração de chuvas sobre o Centro-Sul do Brasil, padrão típico do fenômeno, libera a circulação de ventos no Nordeste, justamente onde está instalada a maior parte dos parques eólicos do país. — Com a chuva mais concentrada sobre o Centro-Sul, os ventos no Nordeste são favorecidos. Na teoria, deveríamos ter uma geração até maior do que o normal. A radiação solar fica muito intensa no Centro-Norte, o que inclui todo o cinturão solar, onde estão as principais fazendas — afirma Nascimento. Leilão de energia vai gerar custo extra de R$ 48 bi por ano na conta de luz: impacto será de 7,5% em 2032 As meteorologistas Carine Malagolini Gama e Ana Marques, da Climatempo, acrescentam que o impacto na geração eólica em anos de El Niño é mais baixo no Nordeste, pois os efeitos chegam em período que os ventos já não estão no pico. — Por outro lado, os anos de El Niño tendem a ser mais quentes no Brasil, aumentando o consumo. Com maior demanda, pode haver necessidade de mais geração, o que ajuda a absorver parte da produção renovável e reduz os cortes em alguns momentos – afirma Carine. Apesar de as renováveis produzirem mais, e a demanda poder crescer por conta do calor, cortes de geração do ONS continuam sendo uma manobra necessária. Uma das razões para o aparente contrassenso está na diferença entre o timing da oferta e o da demanda. Segundo Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, a paralisação de geradoras é produto de um desequilíbrio entre a expansão da geração distribuída — solar, sobretudo — e a capacidade do sistema de absorvê-la. — Isso ocorre diariamente: corta-se durante o dia de sol e acionam-se as termelétricas no entardecer, quando a demanda sobe e o sol desaparece — diz Castro. A geração solar cresceu 44% em um único ano recentemente, adicionando muita energia sem que houvesse expansão de redes de transmissão e sistemas de armazenamento por bateria, por exemplo. O resultado é que a energia mais barata é descartada em determinados momentos, enquanto as termelétricas precisam ser acionadas nas horas de pico noturno. A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) defende a reorganização do setor com o fim da política de subsídios, que “fizeram o setor de mineração explodir nos últimos anos, mas impactaram o bolso dos consumidores”. Sem a contrapartida de mecanismos de flexibilidade ou armazenamento, alerta, “tem causado problemas operacionais”.