No dia 7 de junho, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionou um plano de emergência inédito para cortar geração de energia no país. Não por falta, mas por excesso de oferta. Era feriado, a demanda estava baixa e a geração solar, alta. A combinação forçou uma restrição de 1 gigawatt na rede para preservar a segurança do sistema. Um apagão às avessas.

O episódio é um alerta do que pode se repetir nas próximas semanas. Junho e julho já são meses de menor demanda —o frio reduz o uso de ar-condicionado— e a Copa esvazia ruas, escritórios e shoppings nos dias de jogo do Brasil. Some-se a isso a geração solar nos telhados, e uma fatia cada vez maior do consumo passa a ser suprida "atrás do medidor" (BTM), sem passar pela rede.

Foi essa combinação —baixa demanda, alta geração distribuída— que levou ao corte de domingo. A pergunta é simples de formular e difícil de responder: como coordenar um sistema elétrico em que milhões de consumidores também produzem energia?

Os eventos recentes sugerem que o problema é ainda maior do que parece. Dados da Aneel e do ONS alertam que o volume de micro e minigeração distribuída (MMGD) pode ser significativamente superior ao retratado pelos números oficiais: consumidores-produtores estariam sub-reportando a dimensão de seus sistemas fotovoltaicos e sua capacidade de injetar energia na rede. A descoberta chama atenção não só pelo potencial descumprimento regulatório, mas porque o operador pode estar tomando decisões —como a de domingo— sem conhecer com precisão o tamanho real da frota solar diante de si.