Segundo o operador do sistema elétrico, as interrupções na produção de eletricidade renovável por excesso de oferta continuarão expressivos até 2030 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Parque eólico no Nordeste; órgão responsável pela determinação dos curtailments projeta interrupções da ordem de 1,5 gigawatt médio em 2027 — Foto: Reprodução O Brasil vive o paradoxo de precisar limitar a produção de energia renovável em um momento em que o mundo busca a transição para uma economia mais limpa. O problema está na expansão descontrolada da oferta, sem demanda equivalente. O país continuará convivendo com “curtailments”, os cortes forçados na produção de energia que vêm afetando a geração renovável, nos próximos anos. Os volumes serão expressivos, mas declinantes. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável pela determinação dos curtailments, projeta interrupções da ordem de 1,5 gigawatt médio (GWmed) em 2027, volume que deverá ser reduzido para 1 GWmed em 2030. A informação consta do Plano da Operação Energética (PEN 2026), tornado público em julho. É o primeiro documento do ONS que prevê uma redução na projeção de curtailments para os próximos anos. O PEN 2026 informa que a redução na projeção ocorre “em função do efeito conjunto do crescimento da demanda, da expansão da rede de transmissão e da redução do ritmo de expansão das fontes eólicas e solares conectadas na rede básica”. Procurado, o ONS reforçou que curtailments continuarão necessários apesar da expansão já contratada da rede de transmissão e da implementação de sistemas de armazenamento de energia em baterias, com primeiros leilões programados para dezembro. “A redução do curtailment dependerá de diversos fatores, entre eles a entrada em operação de novas cargas (demandas) eletrointensivas, como os data centers, e o equilíbrio entre o crescimento da demanda e a expansão da geração renovável centralizada e da micro e minigeração distribuída (MMGD)”, informou. Curtailments são um dos principais desafios do setor elétrico brasileiro. Em 2025, o Brasil descartou 20% da energia produzida por usinas eólicas e fotovoltaicas centralizadas. Segundo a consultoria Volt Robotics, os cortes totalizaram 4,02 GW médios e geraram prejuízos estimados emR$ 6,5 bilhões para as geradoras. Os cortes são decorrência principalmente de três restrições: físicas, na infraestrutura do sistema de transmissão e distribuição; de confiabilidade do sistema, quando o corte é feito para preservar a estabilidade e a segurança do sistema elétrico; e energética, quando há oferta de eletricidade acima da demanda em determinados períodos do dia, principalmente quando há forte insolação. Essa sobreoferta energética é a principal causa e deve responder por mais de 95% dos cortes até 2030, segundo a avaliação probabilística do ONS. Nos últimos dez anos, a capacidade de geração MMGD - via placas fotovoltaicas instaladas em telhados - cresceu mais de 800%. A capacidade de geração centralizada, em parques eólicos e fotovoltaicos, cresceu mais de 500%. Em dezembro de 2025, a geração MMGD alcançou uma capacidade de 43 GW, um pouco mais de três usinas de Itaipu, e o ONS projeta para 2030 uma capacidade de 65,3 GW nos telhados. A capacidade de geração solar e eólica centralizada passará de 55,1 GW para 60,3 GW. Especialistas em energia vinculam a forte e rápida expansão das renováveis à disponibilidade de incentivos generosos. “Essas expansões ocorrem deslocadas de sinais econômicos que reflitam as reais necessidades físicas do sistema energético”, diz Luiz Barroso, CEO da consultoria PSR. De acordo com o “Subsidiômetro” da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os subsídios para a geração MMGD somaram R$ 17,1 bilhões apenas em 2025, e os para geração eólica e solar centralizada, R$ 14,7 bilhões. Os recursos são recolhidos nas tarifas pagas pelos consumidores residenciais. “Hoje a geração solar e eólica é economicamente viável, não faz sentido ofertar subsídios”, diz o professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel-UFRJ). Para ele, o excesso de subsídios levou o governo a perder o protagonismo no planejamento energético. “O governo deixou de ter ingerência na expansão da geração solar”, diz o professor. “O curtailment é o único mecanismo que o ONS tem disponível para adequar a oferta à demanda de energia.” Os curtlaiments não são exclusividade do Brasil. Estados Unidos, Austrália, China, Chile, Alemanha e Reino Unido também enfrentam o problema. Mas há diferenças na forma como esses países lidam com a situação. Na maioria deles, prevalece um modelo de contratação de energia em leilão diário. Quando há sobreoferta, os preços caem, podendo chegar a zero ou até ficar negativos. O gerador que não aceita o preço estipulado deixa de gerar e compra energia barata no mercado para cumprir seus contratos. Já no Brasil o despacho é decidido de forma centralizada pelo ONS por meio de modelos de otimização e existe um piso de preço, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). O gerador cortado pelo ONS é obrigado a recomprar energia ao preço do PLD, resultando em prejuízos. “No exterior, o curtailment de origem energética não é um problema. O corte na sobreoferta é resolvido pelo preço do mercado”, diz Jairo Terra, líder de regulação e litígios da PSR. Outra diferença é que, no exterior, o gerador MMGD é cortado da rede quando há sobreoferta de energia e exposto comercialmente a flutuação de preços. No Brasil, ele é protegido. “O MMGD é parte importante do problema, recebe incentivos, e precisa fazer parte da solução do curtailment”, diz Barroso. “Ele poderia ser chamado a instalar baterias próprias, que reduziriam a oferta à rede nos horários de pico na geração.”