Com quase 90% da matriz elétrica baseados em fontes renováveis, o Brasil tem uma condição privilegiada na geração de energia, mas isso também exige alta capacidade de lidar com variações no clima. A ocorrência do El Niño neste ano impõe mais uma vez um desafio adicional ao setor elétrico brasileiro, mas, em um momento de expansão da geração de energia limpa no país, pode até favorecer o melhor aproveitamento das fontes eólica e solar, minimizando impactos e custos. O El Niño consiste no aquecimento das águas do Oceano Pacífico, associado pelos meteorologistas a alterações climáticas em todo o planeta. No Brasil, a expectativa é de mudanças no regime de chuvas neste segundo semestre, com possibilidade de seca no Norte e Nordeste, ondas de calor no centro-sul e enchentes no Sul. — Foto: Arte O fenômeno climático é um ponto de atenção para os reservatórios das hidrelétricas, a principal fonte do Sistema Interligado Nacional (SIN), e para o aumento de demanda com mais aparelhos de ar-condicionado ligados, por exemplo. No entanto, especialistas apontam que o cenário pode reabrir espaço para outras fontes renováveis, como solar e eólica — cuja geração tem sido limitada devido a um descasamento com os horários de maior consumo de energia —, sem que o país abra mão da segurança das termelétricas. Maior em 76 anos Este ano já começou com uma preocupação no setor elétrico em relação ao nível de reservatórios de hidrelétricas, principalmente nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Sul, que concentram a maior parte do consumo de energia do país, embora a situação atual seja satisfatória. Segundo os dados mais recentes do Operador Nacional do Sistema (ONS), o Subsistema Sudeste/Centro-Oeste está com 61,16% de sua capacidade de armazenamento, enquanto o Sul está em 84,38%. O Nordeste e o Norte estão em 80,80% e 86,81%, respectivamente. No entanto, as previsões de um El Niño severo nesta segunda metade do ano acenderam um alerta. Fachada edifício do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), no Rio — Foto: Bruno Rosa Há duas semanas, o Centro de Previsão Climática da Agência Oceânica e Atmosférica (CPC/NOAA) dos EUA aumentou para mais de 90% a chance de um evento muito forte na primavera e no verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul. O órgão vê 69% de chance de este ser o El Niño mais intenso desde 1950. O fenômeno climático ocorre quando há um aquecimento persistente, acima da média, das águas do Pacífico, que altera a circulação atmosférica e os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. A intensidade do El Niño não depende só do aumento da temperatura do oceano, mas da capacidade desse aquecimento de provocar mudanças consistentes nos ventos e nas chuvas. Segundo o CPC/NOAA, essa combinação de fatores despontou mais claramente em julho, com mudanças nos ventos em diferentes níveis da atmosfera, gerando mais chuvas no Pacífico. No Brasil, as alterações esperadas para o El Niño são chuvas mais irregulares, acima da média no Sul e abaixo no Norte e no Nordeste a partir de outubro, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Em julho, o ONS atualizou as projeções para o fornecimento de energia elétrica para o segundo semestre. Ressaltou a situação do subsistema Sudeste/Centro-Oeste, no qual o cenário mais desfavorável é de chuva abaixo da média na maior parte do período analisado, com impacto nos lagos de hidrelétricas na primavera, mas com efeitos limitados no período chuvoso da região, de dezembro a março. A maior variação esperada é no volume de precipitação no Sul, no Norte e no Nordeste. Alívio no ‘curtailment’ Por outro lado, ventos mais fortes e mais dias de sol podem favorecer outras duas fontes renováveis abundantes no país, diz o ONS: “Há expectativa de predomínio de céu claro e intensificação dos ventos no Nordeste, favorecendo a geração solar fotovoltaica e eólica”. Essas duas fontes têm sofrido recentemente com o chamado curtailment, o corte na geração imposto pelo ONS por causa de excesso de energia no sistema durante o dia sem demanda correspondente e de limitações de transmissão. O equilíbrio é necessário para evitar apagões, mas provoca prejuízo aos geradores dessas duas fontes. Se as hidrelétricas do Norte e do Nordeste tendem a produzir menos sob o El Niño, aerogeradores e placas fotovoltaicas poderão ser mais bem aproveitados neste ano, esperam executivos do setor como Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica): — Os parques eólicos estão muito centrados no Nordeste brasileiro, mais de 90% da capacidade eólica. Vamos ter uma oferta menor de água, e aí vamos utilizar os recursos eólicos para normalmente salvar o sistema. E aí tem um fator que é o de que a eólica vai continuar gerando energia o dia inteiro, nos horários de pico. Às 18h, por exemplo, é justamente quando o vento é mais forte em algumas regiões do país. Então acho que isso pode ajudar muito a diminuir a dependência de termelétricas. Equinor produz energia solar e eólica no Complexo Serra da Babilônia, na Bahia, enquanto explora petróleo na Bacia de Santos — Foto: Rio Energy/Divulgação Para a geração solar é diferente. O aumento de chuvas esperado no Sul do Brasil pode resultar em uma queda de radiação e impactar a geração das usinas e das placas da chamada geração distribuída instaladas em telhados na região. Mas, para a presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), Bárbara Rubim, esse efeito deve ser limitado e o setor terá ainda assim uma importante contribuição neste ano. A entidade estima que a geração solar diminuiu em cerca de R$ 13 bilhões o custo da conta de luz na crise hídrica de 2021. — A solar tem ajudado não só a compensar eventual baixa dos reservatórios, mas também a poupá-los nos períodos de maior geração. Sem dúvida, ela poderá ajudar a compensar uma geração hídrica mais baixa, como já tem feito — diz. José Marangon, professor da Universidade Federal de Itajubá, que estuda os efeitos das mudanças climáticas sobre a geração de energia, concorda que as mudanças impostas pelo El Niño devem beneficiar parques solares e eólicos com a redução dos cortes de geração: — Se a temperatura sobe, a demanda por ar-condicionado cresce, mas a geração solar ajuda a aliviar esse estresse, sobretudo por ocorrer durante o dia, quando esse consumo é maior. A eólica complementa essa geração, especialmente à noite, e o armazenamento (de energia) por baterias pode ajudar a equilibrar as oscilações das fontes renováveis. Segurança térmica Apesar da expectativa, o avanço é limitado. A estabilidade das termelétricas ainda é o principal seguro do ONS para garantir energia nos horários de pico, entre o fim da tarde e o início da noite, dada a intermitência das fontes solar e eólica. — A principal preocupação é com os reservatórios, que podem sofrer com falta de chuvas no fim do ano. Isso poderia deixar o sistema elétrico numa situação mais difícil no início de 2027. Nesse contexto, as termelétricas devem seguir como principal reforço nos horários de ponta, com oferta já garantida pelo leilão realizado neste ano — explica o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro. Nivalde de Castro, pesquisador da UFRJ, fala em evento no Rio — Foto: Leo Martins O Ministério de Minas e Energia (MME) cita o certame de reserva de capacidade, realizado em março, como uma das principais medidas para reforçar a segurança do sistema elétrico diante do El Niño. Foram contratados 501 MW de potência, sendo 80% de usinas a óleo combustível e diesel, com entrada em operação já em 2026 e 2027 e contratos de três anos, e 20% de usinas a biodiesel, para dez anos. “No monitoramento dos riscos ao setor elétrico decorrentes do El Niño, em caso de necessidade, poderá haver despacho térmico adicional, inclusive em razão da possibilidade de ondas de calor”, diz a nota do MME, referindo-se ao consumo que costuma acompanhar altas temperaturas. No fim de julho, o governo antecipou para setembro a entrada em operação de cinco termelétricas inicialmente previstas para 2027 e 2028. Isso agrega 1,8 GW de potência ao SIN, num “reforço da segurança do suprimento diante dos cenários associados à possível ocorrência do fenômeno El Niño”, informou o ONS.