Setor elétrico traça planos para reduzir impacto do clima. Vento, calor, chuva, alagamento, seca e queimada impõem desafios distintos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Energia eólica: 'Temos no setor um investimento alto em pesquisa e desenvolvimento para tornar nossos sistemas mais resilientes', diz Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia — Foto: Eze Amos/The New York Times O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos começa a mudar a forma como empresas do setor elétrico avaliam riscos, operam ativos e planejam investimentos. Vento, calor, chuva, alagamento, seca e queimada impõem desafios distintos a usinas e redes de transmissão e aumentam a preocupação não só com a integridade da infraestrutura, da turbina ao poste de distribuição, mas também com a capacidade de restabelecer a operação em caso de pane. A adaptação à instabilidade do clima virou tema do planejamento de longo prazo no setor. — Resiliência deixou de ser tema de manutenção e passou a ser de concepção do projeto — diz Vinicius Crema, diretor de Operações da Alupar, que atua em geração, transmissão e comercialização de energia. A companhia detém participação em 45 concessões de transmissão no Brasil, Colômbia e Peru e soma 798,5 MW de capacidade instalada em 12 empreendimentos de geração hidrelétrica, eólica e fotovoltaica. Para linhas de transmissão, o mais preocupante são eventos como tempestades e ventos severos, raios, alagamentos, deslizamentos e queimadas, capazes de afetar ao mesmo tempo vários alvos, incluindo linhas, subestações, sistemas de comunicação e até a logística necessária para uma resposta eficiente. Fenômeno climático El Niño — Foto: Arte — É esse efeito combinado que exige um preparo diferente do que o setor fazia dez anos atrás — diz Crema. Nos últimos cinco anos, a empresa investiu R$ 367,1 milhões para dar maior resiliência e capacidade de resposta aos ativos de transmissão no Brasil. Na geração, o clima sempre foi uma variável, já que chuva, vazão dos rios e regime de ventos influenciam o desempenho dos ativos. Secas prolongadas ou menor disponibilidade de ventos reduzem a eficiência operacional. Segundo Crema, quando a empresa avalia um novo empreendimento, um dos pontos centrais, além de custo, prazo e desempenho esperado, é a exposição a eventos climáticos ao longo do ciclo de vida, medido em décadas. Vinicius Crema, diretor de operações da Alupar: "Resiliência deixou de ser tema de manutenção e passou a ser de concepção do projeto" — Foto: Divulgação Para o setor solar fotovoltaico, com 74,3 gigawatts de potência instalada, há um risco para os inversores com ventos fortes, calor excessivo — há perda de eficiência quando a temperatura excede os 40ºC, devido ao superaquecimento dos módulos fotovoltaicos e outros componentes. Esses riscos vêm sendo mapeados, mas ainda não influenciam decisões de investimentos, segundo Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). — Como os eventos climáticos estão aumentando em frequência e intensidade, eles começam a entrar na matriz de risco a ser avaliada, tal qual o furto de equipamentos e componentes — conta. Tempos extremos Ventos extremos e altas temperaturas também estão na matriz de risco dos aerogeradores, as turbinas de geração eólica que têm mecanismos de proteção e entram em modo de proteção quando a velocidade dos ventos ultrapassa 22 metros por segundo. Mais que manter a estrutura de geração intacta, a preocupação das empresas tem sido a de reativar a produção de energia sem maiores prejuízos caso ela precise ser paralisada. — Temos hoje no setor um investimento alto em pesquisa e desenvolvimento para tornar nossos sistemas mais resilientes — afirma Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Bárbara Rubim, presidente do conselho de administração da Absolar: "Como os eventos climáticos estão aumentando em frequência e intensidade, eles começam a entrar na matriz de risco a ser avaliada, tal qual o furto de equipamentos e componentes" — Foto: Divulgação A Auren Energia, com 8,7 GW de capacidade instalada em 39 usinas distribuídas por nove estados, aposta na diversificação do portfólio justamente para lidar com a variabilidade crescente do clima. Dentre seus empreendimentos, 54% são de geração hidrelétrica, 36% de eólica e 10% solar. Mudanças nos padrões hidrológicos, como na vazão dos rios, têm demandado acompanhamento mais preciso, além da participação da empresa no mecanismo de realocação de energia (MRE), estratégia do setor para compartilhar entre hidrelétricas os riscos relacionados à variação da geração. Com o MRE, a energia excedente de algumas usinas pode ser contabilmente realocada para aquelas que produziram menos, reduzindo a exposição individual às oscilações da produção. Equinor produz energia solar e eólica no Complexo Serra da Babilônia, na Bahia — Foto: Rio Energy/Divulgação Monitoramento Parques eólicos e usinas solares da companhia têm sido monitorados a partir da análise de dados históricos. De acordo com Rafael Campolina, gerente executivo de Sustentabilidade da Auren Energia, a resposta ao aumento da frequência de eventos extremos também passa pela alocação de capital e orienta a análise de novos investimentos: — Os riscos e oportunidades climáticas são variáveis consideradas na avaliação de novos investimentos, ao lado de eficiência operacional, retorno e geração de valor no longo prazo.